BUSCAR
BUSCAR
Relato
8 de março: Conheça histórias de quatro mulheres que nunca baixaram a cabeça
No Dia Internacional da Mulher, reportagem mostra um pouco sobre quatro mulheres que, juntas, compartilham sobre os dramas e conquistas que fazem parte da vida das 1,7 milhões de mulheres que compõem o RN
Ana Luiza Vila Nova
08/03/2021 | 08:46

Cada uma a sua maneira, construindo e vivendo o nosso estado. Histórias de força, beleza e sonhos, que se escondem por trás de todos os semblantes femininos que cruzamos diariamente na rua, mesmo sem nos darmos conta. Rostos que carregam marcas de força e superação mas, acima de tudo, e talvez ainda mais importante, marcas de beleza e de sonhos.
Josiane Justino tem 31 anos e mora em Canguaretama, no litoral sul potiguar.

Carioca de Duque de Caxias, veio tentar a vida em terras potiguares há pouco mais de dois anos. Trazendo na bagagem seus quatro filhos, ela espera encontrar aqui uma solução para um problema comumente enfrentado por homens e mulheres do nosso país e agravado ainda mais com a pandemia da Covid-19: o desemprego.

A vendedora faz parte das 8,5 milhões de mulheres brasileiras que perderam seus postos de trabalho entre o último trimestre de 2019 e o mesmo período de 2020, segundo mostra o IBGE, através da Pnad Contínua.
Determinada a sair dessa estatística, Josiane atua fazendo “bicos” na cidade para garantir o sustento dos filhos, que, segundo ela, são a grande importância da sua vida. Quando a conheci, vestia a camisa amarela de proteção UV tipicamente usada pelas mulheres que vendem o “Amarelinho da Sorte”. Junto de duas companheiras de trabalho, ela oferecia o pequeno talão de papel para as pessoas que passavam pelo centro de Natal, esperando voltar para casa com a sua comissão no final do dia.

“Meu sonho é conseguir um emprego de verdade para cuidar dos meus filhos. Serei realizada quando eu puder dar a eles tudo o que eu nunca tive na vida”, falou com os olhos verdes já marejados.

Quando pedi a ela para mandar uma mensagem a outras mulheres, foi sucinta: “peço a elas para nunca baixarem a cabeça, para se manterem sempre guerreiras e fortes!”.

A frase foi repetida por Vanessa Souza, de 18 anos. Estudante de enfermagem e vendedora de açaí, trouxe em sua fala um bonito e – quase raro – otimismo pelo futuro que a vida lhe reserva.

“Eu costumo dizer que todo dia é para matar um leopardo, não é nem um leão”, contou, parando para sorrir da mudança feita no ditado popular. “Mas temos que levantar a cabeça, seguir em frente e nunca desistir. Porque as lutas virão todos os dias, mas no final temos que acreditar que nós teremos a nossa vitória”.

Com os pais separados desde que tinha apenas cinco anos, Vanessa precisou ajudar em casa desde muito cedo. Quando estava para completar 12 anos, sua irmã mais nova adoeceu e a mãe se viu obrigada a se afastar do mercado de trabalho para cuidar da menina. Filha mais velha entre os três irmãos e muito determinada, a estudante pediu a mãe que usassem o dinheiro que tinham para comprar um carrinho de açaí e a deixasse tentar trabalhar.

Hoje, faz sete anos que as pessoas estão acostumadas a ver a menina sentada junto ao seu carrinho de açaí numa das esquinas da Avenida Rio Branco, no centro de Natal. A iniciativa deu tão certo que, além de conseguir ajudar em casa, ela e a mãe -que é cozinheira- também pretendem abrir um restaurante juntas, em breve.

Envolvida pela sua história, quis saber também sobre o seu pai, que ainda não tinha sido citado em nossa conversa. Ela respondeu que a falta da presença e da ajuda do pai foi o que deu força para que começasse a correr atrás de seu futuro ainda tão cedo.

O abandono sentido pela jovem é a realidade de muitos no País, sobretudo de crianças e adolescentes, que têm sua criação afetada pela falta de contato com o pai. Nesse caso, há uma dupla – e as vezes tripla – jornada desenvolvida pelas mulheres. Segundo dados do IBGE, em 2015, cerca de 12 milhões de mães chefiavam os lares sozinhas, sem o apoio dos pais.

A história, no entanto, não se repete com Francisca de Assis. Casada há 36 anos, a aposentada e proprietária de uma barraca de bolsas na Cidade Alta sempre criou os três filhos – dois de sangue e um de coração – com a ajuda do marido. E se enche de felicidade ao falar sobre a família: “são as benções que Deus me deu”.

A comerciante veio de Lajes, na região central potiguar, para Natal quando ainda tinha 15 anos, com o objetivo de estudar e trabalhar, mas chegando aqui os planos mudaram. Após frequentar alguns cursos no Senai, conseguiu emprego no Campus Universitário da UFRN e depois, na Guararapes. A dedicação ao trabalho, fez com que ela abandonasse os estudos quando estava no 2º grau.

Agora, já com a vida encaminhada e os filhos criados, Francisca voltou para as salas de aula para concluir o ensino médio.

“Mais nova, quando eu cheguei em Natal eu não consegui me dedicar aos estudos mas agora decidi voltar a aprender, me atualizar um pouco. Tenho muita vontade aprender mais, nunca é tarde para isso”, ela destacou.

A necessidade de trabalhar é o maior fator para abandono escolar no Brasil, mas, para as mulheres, outros duas razões também colaboram efetivamente para isso: a gravidez e os afazeres domésticos. Segundo o IBGE, as duas tarefas – comumente atribuída somente à parcela feminina da população – fez que com 4,2 milhões de jovens entre 14 a 29 anos, não completassem a educação básica em 2019.

Mas para Francisca, as dificuldades ficaram para trás. Hoje, ela se sente uma pessoa realizada e deseja que todas as mulheres também possam se sentir assim. “Desejo que todas nós sejamos felizes e que sejam todas muito abençoadas”.

A importância da educação foi um ponto defendido pela professora de ciências Janyne Suerda. A moradora da Zona Norte de Natal, tem 43 anos e enfrenta uma batalha diária para cumprir sua função social e colaborar para que essas taxas de abandono sejam reduzidas.

Ela faz parte do quadro de educadores da escola municipal de Poço de Pedra, localizado na zona rural de São Gonçalo, a 42km de Natal. A estrada para chegar até o trabalho é de barro e o percurso é feito numa van ou kombi dispobilizada pela Prefeitura, nem sempre nas condições mais adequadas. Mas as interpéries do dia-a-dia não diminuem o seu amor pela profissão.

“Eu me realizo como professora, e vejo a conquista dos meus alunos como se fossem meus filhos. A gente sabe que muitas vezes é dificil, mas quando a gente olha pra alguém crescido, homem ou mulher feita, vê ele realizado como pessoa e lembra que foi seu aluno, é muito gratificante. Faz valer a pena”.

Janyne conta ainda que a vontade pela educação foi herdada da mãe, que também foi professora. Sua mensagem concorda com o já dito por Josiane e Vanessa e faz jus aos ensinamentos passados pela mãe: “Acredito que a mulher não deve baixar sua cabeça. A gente só impõe nosso pensamento e nossa vontade quando a gente respira, bate no peito e diz: eu sou mulher e eu posso fazer acontecer”.

Sede: Av. Hermes da Fonseca, 384 – Petropolis – Natal – RN – Cep. 59020-000
Telefone: (84) 3027-1690 / 3027-4415
Redação: (84) 98117-5384 - [email protected]
Comercial: (84) 98117-1718 - [email protected]
Copyright Grupo Agora RN. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização prévia.