Editorial
Rumo à solidão
Por Redação - Publicado em 31/03/2020 às 05:00
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D epois dos últimos desatinos do presidente da República, atravessando o tom com o seu ministro da Saúde e agora cobrando resultados, que ele considera até aqui inexistentes, e do ministro da Segurança Pública, Sérgio Moro, um parlamentarismo começa a se desenhar no Brasil, ignorando por completo a figura do primeiro-ministro.

Não se obtém um resultado desses às custas de nada. É preciso muito esforço e insistência para produzir as rupturas que Bolsonaro vem diligentemente construindo ao oscilar de lá para cá como se o País pudesse aturar tamanha demonstração de insegurança do chefe da Nação, mesclada a uma insensibilidade que beira ao canhestro.

Diferentemente daqueles relógios antigos, cujos donos suportavam ouvir as doze badaladas da meia noite por se tratar de um som lindo e marcante, que os embalaria pelo resto de suas vidas, as estridências do presidente mostram um homem cada dia mais isolado no poder, insistindo em exercitar populismo num terreno movediço de uma pandemia que ameaça o planeta.

Sem saber por que está sendo punido por um vírus global, Bolsonaro se esquece completamente que deixou escorrer por entre os dedos uma oportunidade de ouro para reerguer o País dos resultados medíocres de seu primeiro ano de governo, quando o PIB recuou em relação ao deixado por seu antecessor, Michel Temer.

Ao ganhar de bandeja o cenário perfeito para iniciar um processo de mudanças jamais visto no Estado brasileiro, reorganizando a economia a partir de uma guerra épica – afinal, foram elas que fi zeram muitos países do Ocidente crescer -, Bolsonaro preferiu a negação de tudo como um trunfo inexistente.

E, com isso, colherá uma vitória de Pirro, expressão usada para definir uma vitória obtida a alto preço. Em 281 antes de Cristo, Pirro, Rei de Epiro, pretendia conquistar Roma usando os mesmos métodos de Alexandre para conquistar a Pérsia. Para obter tal êxito, imaginava atravessar o mar Adriático com um exército composto por 25 mil homens de infantaria, 3 mil de cavalaria e 20 elefantes.

Derrotou os romanos em Heracléia, mas com imensas perdas de homens e material bélico. Quando Pirro recebeu um cumprimento pelo triunfo, respondeu: “Mais uma vitória como essa e depois chegamos”. Bolsonaro já deve ter percebido que, com todos os poderes da República contra ele neste momento, a batalha já estará perdida, mesmo antes em que pense em começar outra.

Para um homem soturno, que não entende as glórias do cargo que ocupa, investir contra moinhos só reservará a ele espinhos, quando poderia descortinar um roseiral só resultante de grandes guerras vencidas.

A pandemia é uma questão de tempo, como foram as demais que a precederam, mas uma coisa é certa: quando passar, não restará pedra sobre pedra de muita coisa, entre elas um certo presidente que não soube aproveitar a fama enquanto ela durou.

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