Publicidade
Editorial
Cadê o maestro?
Por Redação - Publicado em 25/03/2020 às 00:10
D izem que a desconfi ança e o questionamento excessivos fazem mal ao moral de uma nação na medida em que tiram do país o poder e a decisão para agir. No entanto, é exatamente isso que acontece com o Brasil em relação ao presidente da República nessa angustiante luta contra o novo coronavírus.

As idas e vindas de Bolsonaro, ora indicando que a pandemia não passa de histeria, ora promovendo shows circenses de máscara para anunciar medidas, sem ao menos amadurecê-las, sugerindo uma ligação direta com os prefeitos, passando sobre a autoridade dos governadores, criaram carapaças de dúvidas que resultaram no que se vê atualmente.

Agora, é o próprio ministro da Saúde quem adverte estados e municípios para a possibilidade de estarem pesando a mão em decisões como a quarentena ao tirarem de circulação trabalhadores que precisariam estar ativos neste momento e que não estão. Disse ele nesta terça-feira que as restrições impostas nos estados, como fechamento de comércios, são “péssimas” para o setor de saúde.

E, surpreendentemente, em seguida, diz que não irá pedir aos governadores para afrouxarem as medidas, mas alerta para a necessidade de modulá-las, de fazer ajustes. “Tem médicos fechando consultórios. Daqui a pouco estou lá cuidando de um vírus, mas cadê o pré-natal? Cadê o cara que está fazendo a quimioterapia? Não dá para chegar e dizer o que é essencial. Se precisar de um mecânico para consertar uma ambulância, ele é o mais essencial naquele momento”, disse Mandetta ao sair do Palácio do Planalto, após conferência com governadores do Centro-Oeste e Sudeste, informa o jornal O Estado de S.Paulo.

Nesta quarta-feira, acontece uma nova videoconferência do governo, desta vez com os governadores do Centro Sul, entre eles desafetos declarados de Bolsonaro, como João Dória de São Paulo e Wilson Witzel do Rio. A impressão é que, mais do que atrapalhado e atrapalhando com suas intromissões indevidas, o presidente tumultua o processo ao subverter os ritos republicanos de tomar decisões com base num processo de consultas, que agora é feito mal e porcamente por vídeo conferência, por força da necessidade.

Há uma crise instalada e medidas sérias a serem tomadas. Muitas, por certo, deverão ser cuidadosamente dosadas para que o remédio, em falta ou excesso, não mate o paciente. Isso não é tarefa para um homem só. Especialmente quando ele delega tudo o que o aborrece, assina medidas sem ler, volta atrás seguidamente em decisões tomadas e olha com desconfiança tudo o que o cerca, forçando os auxiliares mais próximos a dosar suas próprias ações e a buscar uma postura leniente para não o desagradar.

Publicidade
Publicidade