Editorial
Cabo de guerra presidencial
Por Redação - Publicado em 27/03/2020 às 00:05
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A pandemia do novo coronavírus exige isolamento social, pelo menos enquanto não se conhece o comportamento de seu contágio no Brasil, cujo pico ainda não chegou, mas cuja eficácia foi comprovada na China, onde tudo começou.

Nesse sentido, a atuação do presidente Jair Bolsonaro, nos últimos dias, tem sido absolutamente desastrosa, ao estimular pessoas a voltarem às ruas, recriando a possibilidade das aglomerações para as quais tanto as autoridades de saúde do mundo vêm alertando. A cada dia que passa, os desafios aumentam e, para agravar ainda mais a situação, o presidente se isola daqueles que, neste momento, poderiam estar a seu lado, ombreados numa luta que é de todos – os governadores.

Ao maltratar o governador de São Paulo na reunião da última quarta-feira, conduzindo seus argumentos na direção política, obcecado que é pela reeleição, quando mal completou o primeiro ano de governo, Bolsonaro polariza forças contra si. Um desfecho nada bom no momento em que o País caminha resoluto em direção à recessão econômica, o que exigirá um governo em sintonia fina com a sociedade civil e sua representação no Congresso.

Só que Bolsonaro, hoje, não tem nem uma coisa e nem outra, já que deliberadamente plantou a tempestade perfeita ao isolar-se no topo de uma montanha, tendo apenas seguidores fanáticos ao seu redor. As próximas semanas necessitarão de algo que o governo não vem oferecendo: agilidade para auxiliar o País, a partir dos mais pobres, enquanto seu ministro da Economia fala em disponibilizar cifras numa conversa informal com um empresário.

E ainda o autoriza a divulgar a conversa, como se ele fizesse parte da equipe econômica. Com o passar dos dias, as demandas aumentarão e é preciso que o governo baixe medidas concretas de curto prazo que minimizem a recessão que se instalará, a exemplo do que já acontece neste momento em vários países ao redor do mundo. Nesse momento, é preciso que o presidente da República tente honrar o cargo para o qual foi eleito, buscando a pacificação e o conforto das milhões de famílias que dependem de suas decisões executivas.

Hoje, a tese defendida por Bolsonaro de que estão matando a economia ao não permitir que as pessoas formem aglomerações, infelizmente, está induzindo muita gente a quebrar com o isolamento social praticado com sucesso na China, onde a pandemia começou, e que não livra nem a Índica, cuja população é superior 10 vezes a do Brasil.

A ideia sensata de agirmos duro agora para reduzir o tempo do isolamento social – e, portanto, os reflexos práticos da pandemia na economia - está sendo claramente sabotada pelo presidente que, assim, vai na contramão do que estão fazendo 150 países do mundo.

Ao sugerir o confinamento apenas de idosos e doentes, Bolsonaro flerta com algo impossível de ser feito e por razões tão inacreditavelmente obvias que nem deveria estar sendo debatida neste momento. Infelizmente, as consequências vêm sempre depois.

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