Editorial
Ainda não caiu a ficha
Por Redação - Publicado em 30/03/2020 às 05:00
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A s informações de uma reunião tensa entre o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, e o presidente Jair Bolsonaro, supostamente realizada no sábado, chegaram a dar algum alento de que o chefe da Nação não interferiria mais na questão do isolamento social.

A jornalista Eliane Cantanhede, de O Estado de S.Paulo, que teve acesso a um bastidor do encontro, escreveu que o ministro teria dito estar agindo para não criticar publicamente o presidente, ao que Bolsonaro teria ameaçado demiti-lo, caso o fizesse.

Isso acontece no momento em que o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, do Movimento Regeneração Nacional, um partido de esquerda, capitula diante das evidências e parou de incitar a população contra o isolamento social.

Acontece também uma semana depois de o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Boris Johnson, contaminado com o coronavírus, alterar radicalmente sua posição inicial e apoiar medidas extremas de confinamento para combater a pandemia no Reino Unido.

E acontece depois de o prefeito de Milão, na Itália, reconhecer publicamente a besteira que fez ao aderir à campanha “Milão não para”, copiada depois pelo governo brasileiro e agora apagada das redes sociais do Planalto.

E, finalmente, acontece com a capitulação de Donald Trump, que não só aderiu ao isolamento social, com passará a mandar cheques de US$ 1,3 mil a todos os americanos sem trabalho e US$ 500 para cada fi lho e fi lha dessas pessoas.

Mesmo desperdiçando uma semana preciosa para atiçar pessoas em todo o país contra o isolamento social, Bolsonaro ainda não entendeu que não há saída a não ser imitar o ídolo dele. Será duro, mas se trata de uma situação de guerra, já que, se não for feito, com o número de pessoas assintomáticas contaminando cada dia mais, a explosão de casos em curva ascendente será inevitável e começará a aumentar a qualquer momento em várias regiões do país.

No RN, inclusive. Com a pandemia e a diminuição na circulação de pessoas, caíram dramaticamente o número de mortes por trauma no trânsito, especialmente entre motociclistas, o que ajudará as autoridades de saúde a livrar leitos de UTI neste Outono e no Inverno, períodos quando costumam crescer exponencialmente as doenças respiratórias na população.

Caberá ao governo entender que, a exemplo de uma família que vende todos os bens para custear o tratamento de um fi lho à beira da morte, cabe ao Estado proteger a Nação com tudo o que estiver a seu alcance, sem pensar em consequências e aproveitando esse doloroso momento para rever profundamente suas bases de funcionamento.

Mas nada disso dará certo se a população como um todo não entender que se trata de um esforço geral para achatar a curva pandêmica, até que a maioria produza anticorpos contra o vírus novo, já que uma vacina ainda é algo longínquo, apesar dos esforços conjuntos de cientistas em todo o mundo.

Chamado na semana passada de “BolsoNero” pela revista inglesa The Economist, que nada tem de esquerdista e foi a mesma publicação que teve um correspondente no Brasil ameaçado de expulsão pelo ex-presidente Lula, depois de mencionar a predileção do ex-presidente por bebidas, Bolsonaro resolveu apostar no caos social como maneira de enfrentar uma pandemia de proporções universais.

Não só ele perderá. Todos nós perderemos.

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