Editorial
Abraço mortal; leia o editorial do Agora RN desta quinta (21)
Por Redação - Publicado em 21/05/2020 às 03:43
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N um desses documentários sobre vida selvagem, exibidos pela TV, uma cobra enorme adentra um galinheiro e abocanha a primeira vítima, já sabendo que teria de pegar outra logo em seguida para aplacar seu apetite.

Enquanto prende a primeira com seu peso, vê outras se aproximando dela como que para verificar o que qualquer outro animal, menos a galinha, já teria instintivamente concluído: um assassinato está em curso.

Ao invés de fugir, ficam.

É claro que o segundo bote meio desajeitado não necessita de precisão para trazer a nova presa, logo sufocada pelo abraço mortal do réptil.

Figurativamente, tirando a morte real, é o que acontece com quem se propõe a trabalhar com o presidente Jair Bolsonaro.

A diferença é que cobras não costumam ser influenciadas por seus filhotes para agir, já que estes costumam se liberar muito cedo para tomar conta das próprias vidas e não serem devorados pelas mães.

Ontem, ao se despedir de um cargo que jamais assumiu, a atriz Regina Duarte escreveu uma história um pouco diferente de outras vítimas da piton bolsonarista: foi poupada pelo seu algoz de barriga cheia, ainda digerindo suas três últimas vítimas – dois ex-ministros da Saúde e um ministro da Justiça.

Mera secretária de uma pasta igualmente rebaixada - a Cultura -, que já foi ministério, Regina compôs de maneira melancólica a galeria de abatidos, mas que preferiram a humilhação à morte (figurativa, é claro).

Menos no caso do ex-ministro Gustavo Bebiano, que subiu em banquinhos para conclamar caminheiros à greve, acreditou em Bolsonaro quando poucos faziam isso, foi digerido pela surucucu sem nem saber o que tinha feito, levando para o túmulo uma caçamba de mágoas.

Outros, como o ex-juiz Sérgio Moro ou o médico Luiz Henrique Mandetta acreditaram que seriam capazes de encarar a serpente, até serem picados e neutralizados por ela.

Em comum com as galinhas do comentário sobre vida animal, todas as vítimas correram para o abraço mortal.

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