Quatro em cada dez universitários do Rio Grande do Norte estudavam fora do município onde moravam em 2022. Ao todo, mais de 41 mil estudantes potiguares viviam essa rotina de deslocamento, segundo dados do Censo Demográfico, do IBGE. Com 40,34% dos alunos nessa situação, o Estado ocupa a terceira posição nacional no ranking de maior proporção de universitários matriculados em outra cidade, atrás apenas de Pernambuco (42,59%) e Sergipe (41,34%).
Por trás das estatísticas, há histórias atravessadas por malas improvisadas, viagens cansativas, chamadas de vídeo que substituem abraços e uma maturidade que chega antes do tempo. É o caso de Sthephanny Patrícia, 27 anos, que é de Canguaretama (a 75 km de Natal) e estuda o 12º período de Medicina na UFRN. Desde 2013, quando iniciou os estudos no IFRN, ela passou a dividir a vida entre o interior e Natal.

“Desde 2013, iniciei meu deslocamento para Natal, quando comecei a estudar no IFRN, e, desde então, minha rotina, em razão dos estudos, se restringe a maior parte do tempo a ficar na capital. No início, com deslocamentos diários Canguaretama-Natal e, hoje em dia, com idas para Canguaretama apenas em finais de semana livres do estágio”.
A decisão de sair de casa veio pela busca de oportunidades. “Melhores oportunidades de estudo”, resume. Mas o primeiro impacto foi emocional. “O medo e a ansiedade. Para quem vem do interior, é tudo novo, é tudo grande, é tudo muito diferente. Como eu me considerava ainda muito nova, precisei criar autonomia e amadurecimento mais rápido para lidar melhor com as mudanças e o fato de não ter meus pais por perto para me dar o suporte em Natal”.
Mesmo não estando em um município distante da capital, Sthephanny relata que a rotina intensa do curso limita os reencontros. “Depende muito da fase do estágio em que estou. Mesmo não sendo um interior tão distante, tem momentos que passo mais de um mês sem conseguir vê-los”.
Conciliar estudo, trabalho e vida familiar em cidades diferentes exige escolhas diárias – quase sempre dolorosas. “É um desafio, é cansativo, mas necessário. É como se fosse um conflito entre amores e sonhos. No meu caso, meu alicerce fica no interior e meu sonho na capital, então a gente vai tentando conciliar os dois com a ajuda da tecnologia”.
As viagens continuam pesadas, ainda que o corpo já tenha aprendido a suportar. “No início, era mais cansativo. Hoje em dia, continua sendo cansativo, mas o corpo já está mais lapidado”.
A distância também acelera processos internos. “Sem dúvidas. É um processo que acontece inevitavelmente para conseguir se manter firme longe de quem nos dá suporte.” E transforma a forma de enxergar a própria família.
“De certa forma, a gente passa a valorizar ainda mais a luta dos nossos pais. A saudade acaba sendo um fator importante também, sobretudo quando existem familiares idosos. Infelizmente, há muitos momentos de comemorações familiares em que não consigo estar presente e machuca muito, faz repassar se tudo o que estou fazendo na capital vale a pena mesmo”.
Apesar disso, Sthephanny projeta o retorno. “Voltar para o interior com os aprendizados e sonhos realizados na capital, que, inclusive, é o que pretendo fazer”.
A experiência de Rita Paixão, 24 anos, estudante de Jornalismo da UFRN, natural de Lajes e criada em Caiçara do Rio dos Ventos (a 100 km de Natal), também revela as múltiplas camadas desse deslocamento. Ela chegou à capital em 2021 para trabalhar e iniciou a graduação em 2022. Hoje está no 8º período e divide o tempo entre faculdade, bolsa e estágio.

“A minha rotina agora se resume em conciliar faculdade, bolsa e estágio. Como minhas aulas são à noite, então eu tenho o dia livre e é onde eu faço o estágio e a bolsa na faculdade”, contou.
A adaptação à capital não foi simples. “O que me afetou muito no primeiro momento, após a mudança, foi a questão da mobilidade urbana. Ter que pegar vários ônibus para chegar até um local específico, saber quais linhas passam em qual local. Enfim, foi tudo questão de adaptação”.
O apoio da irmã foi essencial nos primeiros meses. “Já tenho um ponto de apoio aqui, que é a minha irmã. Ela, assim que eu cheguei, me apoiou e ajudou. Foi muito importante de início para me adaptar”.
Rita aponta que a principal motivação de quem deixa o interior costuma ser a mesma: acesso a trabalho e estudo. “Acho que todo mundo que vem do interior, vem morar em Natal, a principal vantagem, falo por mim também, é a questão de ter mais oportunidade de trabalho e também estudo de qualidade”.
Ela lembra que, em muitas cidades, as alternativas se restringem ao ensino a distância ou a viagens diárias em ônibus fornecidos pelas prefeituras. “E é muito mais cansativo você ter que ir e voltar todos os dias por questões de horário, porque é uma, duas horas, ou até três para ir e voltar”.
Mesmo morando em Natal, Rita tenta visitar a família uma vez por mês, quando consegue. “Eu tento ir mensalmente para o interior da minha família, mas é bem cansativo devido ao trajeto”. Muitas vezes, a solução é inverter o caminho. “Então é mais fácil a minha mãe me visitar e visitar a minha irmã”.
A travessia, segundo ela, costuma ser exaustiva. “Eu venho em pé de lá pra cá. São duas horas, mais ou menos, de viagem. (…) É muito cansativo. Os ônibus são extremamente lotados. Eles não respeitam a capacidade máxima”.
Como Sthephanny, Rita também precisou amadurecer rápido. “Realmente precisa amadurecer mais, devido a essa distância, porque você precisa ter mais responsabilidade, você precisa ser mais forte, você não tem o apoio dos seus pais ali perto”. Em poucos meses, passou a morar sozinha. “Foi um impacto grande, eu tive que aprender a me virar”.
A mudança redefiniu o significado de família. “Família quer dizer mais quem está ali presente, com você, quem te apoia, e quem entende que você precisa estar nessa mudança”.
Hoje, Rita pretende permanecer na capital. “Se eu tivesse que escolher, eu preferia ficar em Natal mesmo, porque aqui eu consigo ter mais qualificações, consigo ter mais experiências, adquirir mais habilidades, conhecer novas pessoas”.
O que se vê é uma geração que aprende cedo a viver entre dois mundos: o da origem, onde permanecem os afetos, e o da capital, onde se constroem os projetos de vida. Entre ônibus lotados, estágios puxados e noites solitárias, essas famílias seguem costurando vínculos à distância – sustentadas pela esperança de que o esforço de hoje possa, um dia, permitir o reencontro definitivo.
Dados do IBGE
Os dados do IBGE ajudam a dimensionar esse movimento. Além dos universitários, mais de 43 mil pessoas cursavam ensino fundamental ou médio fora do município de residência no RN em 2022. Entre crianças de 0 a 10 anos, cerca de 4,5 mil frequentavam creche ou pré-escola em outra cidade. Em números absolutos, Parnamirim, São Gonçalo do Amarante e Natal concentram as maiores quantidades de estudantes que se deslocam diariamente.