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Entrevista
“Hospital Ruy Pereira deveria ser a UTI central do estado”, diz o médico Pedro Cavalcanti
Pedro Cavalcante, ex-secretário de Saúde do RN, critica falta de articulação para o combate da Covid-19
Redação
01/07/2020 | 06:02

O médico Pedro Cavalcanti, que foi secretário de saúde do Rio Grande do Norte em 2018, critica a falta diálogo da classe política e dos gestores públicos no combate da Covid-19. “Era para ter chamado universidades, conselho de saúde, frente parlamentar, todo mundo sentar ao redor de uma mesa com uma coordenação que desse uma política única de saúde. Essa foi a grande falha que eu vi durante o enfrentamento de um problema tão grave que é uma pandemia”, disse ele. Confira entrevista completa com o médico:

AGORA RN – Dr. Pedro Cavalcanti, o senhor foi secretário de Saúde do Estado em 2018. Como vê a atuação da pasta nas ações de combate à pandemia?

PC – Nenhum gestor público passou por uma pandemia, pois a última que tivemos foi a gripe espanhola, que foi há 102 anos atrás. As dificuldades foram porque começou já em março uma certa inquietação a nível federal com relação ao Ministério da Saúde, presidente dava uma opinião e o Ministério tinha outra. A medicina é uma ciência, observação e arte. Não é uma receita de bolo que resolve o problema de uma pandemia. Temos que ter uma grande coordenação nas três esferas do governo, onde o SUS, ele tem que ter as mesmas políticas de combate ao coronavírus. O que nós vimos que dividiram: o SUS federal é um, o SUS estadual é outro e o municipal é outro. Esse é o grande problema que nós estamos passando. […] Acho que poderia ter se pensado em uma coordenação a nível de estado e municípios. Eu não tô vendo ninguém se reunindo aqui para isso. Existe na Assembleia uma frente parlamentar da saúde, não estou vendo os pronunciamentos de uma forma bem categórica, bem estudada. O que a gente vê é que montou um comitê para os estados do Nordeste, só que muitas vezes tem políticas e interesses diferentes. Aí temos que ver a questão das políticas municipais. Foi uma situação que ficou esperando que o colapso público e até privado, ele iria acontecer de qualquer forma. As decisões sobre isolamento eram muito dúbias. Não se definia o que era uma quarentena, um isolamento, o que é um distanciamento social, nem o que é lockdown. Então, todo mundo chamou uma coisa de outra e não tinha um critério, porque nós não temos a cultura disso. Era para ter chamado universidades, conselho de saúde, frente parlamentar, todo mundo sentar ao redor de uma mesa com uma coordenação que desse uma política única de saúde. Essa foi a grande falha que eu vi durante o enfrentamento de um problema tão grave que é uma pandemia.

AGORA RN – A Sesap não insistir em um hospital de campanha foi um erro?

PC – Eu acho que houve um equivoco, porque, se era para abrir hospital de campanha, deveriam ter se juntado [Governo do Estado e municípios] e ter feito hospitais de campanhas na área metropolitana de Natal, que está hoje sofrendo muito. Parnamirim já praticamente é o segundo município em contaminações. Teria que se rever mais, não se vê ninguém sentado, ninguém em uma mesa, não estou vendo os conselhos estaduais e municipais de saúde, ninguém se pronunciando. Não estamos vendo a bancada da saúde da assembleia se pronunciando. Então é um desacerto geral no país. É uma desestabilidade do executivo, a nível nacional, o judiciário do STF, com a Câmara, o Senado, o legislativo. Deveria ter tido uma mudança, que isso sirva de lição, para que no futuro seja feito de uma forma melhor.

AGORA RN – Interiorizar os leitos de UTI, como é a estratégia do governo, vai surtir mais efeito?

PC – Há uma necessidade de ter leitos de UTI e isso teria que ser a prioridade, porque [durante a minha gestão] muitos hospitais tinham tido a obra física finalizada e a gente não estava com esses leitos abertos para poder colocar em prática tudo isso. E tinha a questão dos respiradores para Covid-19. O governo federal está mandando alguns respiradores. De 120, do programa do governo, mandaram 80 – ficou 40 em Natal e 40 ficou para o Estado. Consequentemente, Natal teve aí um aporte maior de respiradores, porém, não é ainda o ideal. Eu era defensor, quando estava na secretaria, de que o Hospital Ruy Pereira em vez de ser entregue abandonado, e aí não valer mais nada, era o hospital ser transformado em UTI central do estado. Se a gente está ali, com 80 leitos de UTI, os hospitais tem um número pequeno de UTI para aquelas emergências que ocorrem até no atendimento intrahospitalar. Mas na medida que o paciente estabilizou, ele vai para uma central de UTI, onde você tem tudo ali, equipes treinadas tudo já pronto, e com, vamos dizer, 80 leitos de UTI, para fazer o acolhimento de todos. A angústia de pessoas, não com Covid-19 por conta da epidemia, mas de outras doenças na fila de UTI. Fazendo aquela famosa escolha de Sofia, porque tem um jovem e tem um idoso, aí a prioridade é pro jovem porque o idoso já está no fim da vida. Médico nenhum fica com a cabeça boa quando estiver diante dessa situação. Não foi para isso que nós nos propomos quando nos formamos, quando fizemos nosso juramento. O SUS foi feito para a universalidade. Temos que ter um número de vagas de UTI que seja suficiente para que 85% dessas vagas é que estejam ocupadas. A gente sempre tem que ter reserva técnica.

AGORA RN – O senhor já defendeu o uso da ivermectina como prevenção à Covid-19? Quais as vantagens do medicamento? E a cloroquina? Como vê a politização relacionada com os dois medicamentos?

PC – A ivermectina tem como vantagem a replicação viral, podendo atuar de forma anti-inflamatória, podendo diminuir a carga viral. Ela também não tem efeitos colaterais. Ela tem restrições para grávidas e lactantes, porque não tem nenhum estudo, tem restrições a crianças com menos de cinco anos ou até 15kg. Sobre a cloroquina, ela foi descoberta em 1934. Era um droga muito efetiva para a malária, mas tinha muita toxicidade, muitos efeitos colaterais Após a guerra, estudiosos colocaram um radical hidroxila junto com a cloroquina e criou-se a hidroxicloroquina, que chegou ao mercado em 1955, mais de 20 anos depois. A vantagem da hidroxicoloroquina é que a toxicidade é bem mais baixa, mesmo assim, a toxicidade só existe a longo prazo. Ela é boa porque ela é um potente anti inflamatório, ela poderia minimizar o quadro no início. Nos pacientes graves, você já tem falência múltipla de órgãos, ela tem que ser utilizada no inicio. Sobre a politização das duas drogas, eu vejo com muita tristeza. Muitas pessoas que não são da área da saúde estão opinando a favor ou contra, tanto da ivermectina quanto da hidroxicloroquina, baseado no nosso presidente, que foi quem prescreveu inicialmente a cloroquina para todo mundo. Eu poderia até entender que são medicamentos baratos e os laboratórios não tivessem tanto interesse de fazer pesquisas com essas drogas. Ivermectina no Brasil geralmente é genérica, a cloroquina também. A gente precisa fazer drogas novas. A gente não sabe qual a duração da nossa defesa com esse vírus, se a vacina vai ser duradora, se vai demorar para ter um programa de vacinação, se o Brasil vai ter dinheiro para vacinar todo mundo.

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