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Transtorno
Governo do RN fecha urgência do Hospital João Machado
Pacientes que procuram a unidade para receber o primeiro atendimento são orientados a buscar uma Unidade de Pronto Atendimento
Pedro Trindade
02/04/2020 | 14:45

A urgência do único hospital psiquiátrico do estado, o Doutor João Machado, em Natal, está fechada desde a última segunda-feira (30) com a publicação da Portaria Nº 811, no Diário Oficial do Estado do Rio Grande do Norte.

Desde então, os pacientes que procuram a unidade para receber o primeiro atendimento são orientados a buscar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), conforme artigo 3 do documento.

Para presidente da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Norte, a psiquiatra Ana Lígia, a suspensão da urgência no Hospital João Machado sobrecarrega as UPA’s e não garante atendimento assertivo aos pacientes mentais em crise, com fragilidade e dependência.

Ana Lígia é presidente da Associação de Psiquiatria do RN. Foto: José Aldenir/Agora RN

“Na UPA eles são atendidos por um clínico geral e por uma equipe médica que não recebeu capacitação para este tipo de atendimento. Os profissionais da saúde já estão exaustos com os atendimentos eletivos, principalmente com a chegada do coronavírus. É uma crise no Sistema Único de Saúde (SUS) “, comenta a psiquiatra.

Procurada, a Secretária de Estado de Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap), se limitou em dizer que a tomada desta decisão foi “em virtude da pandemia do coronavírus”.

Ana Lígia ressalta que o protocolo clínico de atendimento da capital, prioriza o atendimento a pessoas que apresentam sintomas da covid-19. “Qual o paciente em crise vai ficar sentado esperando atendimento? Ele pode fugir do local, gerando mais transtorno aos familiares. E se ele entrar em uma sala e quebrar um equipamento, um respirador, que estamos tanto precisando nas unidades, por exemplo; como vai ser?”, ilustra.

Além disso, a psiquiatra diz que se um paciente em crise entrar em contato com uma pessoa infectada pela covid-19 pode ajudar na disseminação do vírus, pois não vai obedecer a etiqueta respiratória e as orientações técnico-sanitárias.

Caso o clínico geral encaminhe o paciente para internação no Hospital João Machado, o translado deve realizado pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), conforme artigo 2. A unidade conta com 100 leitos.

“Às vezes, a família consegue um carro, um táxi para levar o paciente até a unidade de saúde. Se ele já fosse direto para o João Machado, a ambulância que seria usada na transferência poderia ser usada em um outro atendimento. E temos que considerar que isso envolve mais mais Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s) que lutamos tanto para conseguir nesse período de pandemia”, explica Ana Lígia.

A psiquiatra comenta que se essa portaria não for revisada, “entraremos em outra pandemia. Uma pandemia mental. Temos que considerar que esses pacientes têm família. No João Machado, além de atendermos o paciente, atendemos os acompanhantes, quando necessário, através de psicólogos e assistentes sociais. Como será esse atendimento em outras unidades?”

Ana Lígia revelou que os profissionais da saúde que atuavam na urgência do hospital continuam acolhendo os pacientes que chegam de forma espontânea. “Continuamos recebendo essas pessoas, apesar da portaria, pois temos espírito médico e ética profissional que nos impede de negar atendimento”, desabafou.

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