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Relatos
A luta por sobrevivência nas periferias de Natal na batalha diária contra a Covid-19
Moradores de Felipe Camarão, Mãe Luíza e de Igapó falam de como batalham pela subsistência em tempos de isolamento social, da redução da renda e do medo causado por conta do avanço do novo coronavírus por toda a capital potiguar
Ana Lourdes Bal
13/04/2020 | 02:26

“Estou passando fome, sem ter de onde tirar nada”, diz José*, morador do bairro de Felipe Camarão, zona Oeste de Natal. José não quis se identificar para não expor sua família, pois eles têm sofrido preconceito: a irmã contraiu a Covid-19. Ele conta que é prestador de serviços e foi dispensado quando começou a pandemia. “Essa é a realidade dos mais necessitados e desvalidos. Somos os mais sofridos, pois herdamos de nossos antepassados essa vida de sofrimento”, conta.

Com a chegada do coronavírus ao Rio Grande do Norte, as cidades pararam. Uma das recomendações da Organização Mundial de Saúde para combate a doença é o isolamento social. Além disso, o Governo do Estado colocou medidas de restrição relacionadas à restrição de circulação de pessoas, suspendendo funcionamento de shoppings, restaurantes, bares, igrejas, academias, parques, museus, teatros, entre outros locais.

“Algumas das pessoas de Felipe Camarão não estão respeitando o que recomendam os órgãos de saúde. Muitas pessoas daqui não tem renda fixa, a maioria tem empregos informais. Ambulantes, domésticas, borracheiro, mecânico, autônomo, padeiro”, explica ele.

Sobre as medidas de proteção contra a doença, ele diz que as pessoas não têm acesso a álcool em gel. “E muitas só tem água. Poucos têm sabão. Mas boa parte está evitando sair de casa e mantendo distâncias. Já os jovens sem aula, estão jogando bola e ficam aglomerados em esquinas e ruas. Tiveram que fechar uma quadra”, narra.

Recentemente, irmã de José contraiu a Covid-19. “Não tenho proteção com uma paciente em casa com Covid-19, não me deram algum suporte para tratar isso, ela não está tomando nada”, explica. Ele diz não saber se contraiu a doença, mas ele e sua esposa tiveram sintomas de gripe (coriza, tosse, dor de garganta e no corpo).

Já em Mãe Luíza, bairro da zona Leste de Natal, desde o dia 18 de março, o presidente do Conselho Comunitário e vice-presidente da área de Usuários do Conselho Municipal de Saúde, Jefferson Nascimento, iniciou um trabalho com um carro de som. Além de informar os sintomas do coronavírus, ele pediu que as pessoas começassem o distanciamento social e tentassem não se aproximar de pessoas que tivessem vindo de outros estados. Além do carro de som, Jefferson utilizou YouTube, Facebook, Instagram e grupos de WhatsApp para deixar a comunidade de Mãe Luíza informada.

“A maioria das pessoas ouviu o que eu pedi no carro de som e começaram a ficar em quarentena desde o dia 19 de março. Mas alguns não levaram em consideração e continuam agindo de forma normal, como se nada estivesse acontecendo. Estamos passando por um estado crítico, por uma pandemia. As pessoas só passam a acreditar quando acontece com elas”, conta.

Ele conta que realizou doações para 120 famílias e deixou de casa em casa. “Não deixei nem ninguém saber que haviam chegado essas cestas, para não termos aglomerações”, diz o líder. Ele havia feito um cadastro anteriormente e, em cima disso, entregou para os que mais precisavam.

*Nome fictício

“Muitas vezes o álcool em gel não existe”

“É complicado, né? Mas acredito que 65% da população de Igapó está cumprindo a quarentena”, diz João Batista, morador e líder comunitário do bairro de Igapó, zona Norte de Natal. “Mas infelizmente, há alguns bancos e lotéricas, vemos aglomerações e filas. Todo mundo praticamente no mesmo espaço, sem cumprir o distanciamento”, conta.

“Depois da notícia de ontem [sobre as projeções do coronavírus no RN], as pessoas ficaram em pânico. Antes, elas já tinham medo de ser contaminadas. Isso daí já terminou de matar as pessoas aqui”, explica João.
Ele utiliza o grupos de WhatsApp para compartilhar informações e sempre solicita para que as pessoas não saiam de casa e se cuidem.
Dentro de casa, João tenta estar sempre lavar as mãos e usar álcool em gel.

“Fico imaginando aquelas pessoas que não tem condições de comprar um álcool em gel. Hoje você vai comprar 500g de álcool em gel e é R$ 20, 30. Essas pessoas devem fazer o básico, lavar os mãos. O álcool em gel muitas vezes não existe”, explica.

Auxílios durante a pandemia

O Governo Federal iniciou esta semana o pagamento do Auxílio Emergencial. O benefício é destinado aos trabalhadores informais, Microempreendedores Individuais (MEI), autônomos e desempregados, e tem por objetivo fornecer proteção emergencial no período de enfrentamento à crise causada pela pandemia do coronavírus. O benefício no valor de R$ 600,00 terá duração de três meses.

A secretária do Trabalho, da Habitação e da Assistência Social do Estado (Sethas), Isis Oliveira, anunciou que a pasta vai auxiliar na confecção de máscaras para doação. Os empreendimentos que aderirem à campanha vão receber tecido, linha e elástico para a fabricação de máscaras. 50% do que for produzido pelos empreendimentos será destinado à Sethas para doação.

O restante da produção ficará com os empreendimentos de economia solidária para distribuição colaborativa no valor de R$ 1,00 já que os membros desses coletivos também são pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Além disso, desde o dia 30 de março, as unidades do Programa Restaurante Popular de Natal, Mossoró, Parnamirim, Caicó e Macau estão oferecendo refeições gratuitas à população em situação de rua, refugiados e migrantes. Eles agora têm isenção da taxa simbólica cobrada nas refeições: R$ 1,00 cobrada nos almoços e R$ 0,50 no Café Cidadão e na Sopa Cidadã (jantar).

A Secretaria de Trabalho e Assistência Social de Natal (Semtas) realizou ações relacionadas à população de Natal. Já foram abertos espaços para proteger os moradores de rua em unidades de ensino da rede municipal de educação. Também foi promovido o retorno da distribuição de sopa para pessoas em situação de rua.

A Semtas tembém iniciou o trabalho de entrega de cestas básicas para 400 famílias de ambulantes da Praia do Meio e do Forte; para 50 famílias de carroceiros; para 5 entidades do segmento LGBT; e para famílias de catadores de lixos atendidos pelos Centros de Referência e Assistência Social (CRAS) de Natal.

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