Uma das tarefas essenciais para o corpo humano é o transporte de ferro, mineral associado à produção de glóbulos vermelhos e ao transporte do oxigênio. Falhas nesse mecanismo podem provocar a anemia, entre outros problemas. Pesquisadores dos Estados Unidos apostam em uma molécula presente em uma planta bastante popular na Ásia, o cipreste japonês, para evitar a complicação. O hinokitiol foi testado em fungos, peixes e ratos, e surtiu efeito promissor. Para os autores do estudo, publicado na revista americana Science, o resultado pode ajudar em terapias futuras.
“Sem ferro, a vida, em si, não seria viável. O transporte desse mineral é muito importante por causa do papel que ele desempenha no transporte de oxigênio no sangue, em importantes processos metabólicos e na replicação do DNA”, explica ao Correio Barry Paw, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade de Illinois.

Inicialmente, Paw e colegas descobriram a molécula que ajuda no transporte de ferro do organismo. O hinokitiol é um pequeno composto que pode se ligar ao mineral e, por meio da membrana plasmática, levá-lo a locais em que ele é necessário. “Essa molécula está presente em árvores Hinoki, naturais de Taiwan, e em outras árvores de madeira de cedro”, detalha o investigador.
Para comprovar a eficácia do hinokitiol, foram feitos testes com leveduras, peixes-zebra, ratos e células de mamíferos. Todas as amostras tratadas com a molécula tiveram o efeito esperado: a administração da substância aumentou a produção de hemoglobina, proteína que transporta oxigênio no sangue de vertebrado. “Se há um erro genético, as membranas celulares não se abrem, impedindo que o ferro se mova. Mas quando você administra o hinokitiol, essa barreira é transpassada”, complementa Paw.
De acordo com os cientistas, o efeito do hinokitiol nas cobaias é bastante animador, pois mostra que a molécula poderia ser usada como um tratamento extremamente necessário. “Se você está doente porque tem muita função proteica, em muitos casos, podemos fazer algo a respeito. Mas se você está doente porque está perdendo uma proteína que é responsável por uma função essencial, é difícil conseguir fazer algo além de tratar os sintomas. É uma enorme necessidade médica não satisfeita”, diz Martin Burke, também autor do estudo e pesquisador da Universidade de Illinois. “Essa é uma molécula muito interessante e com muito potencial terapêutico. A anemia ferropriva é o problema nutricional mais comum no mundo”, complementa Paw.
Novos testes
Eduardo Flávio Ribeiro, coordenador de Hematologia do Centro de Oncologia do Hospital Santa Lúcia e professor da Universidade de Brasília (UnB), classifica o estudo como promissor. “Acredito que já havia um conhecimento popular que apontava para a ação benéfica dessa planta. Agora, ela foi confirmada por meio dessa investigação.”
Segundo o médico, a molécula estudada poderá ser usada para problemas de saúde além da anemia. “Temos outros transtornos que envolvem problemas no metabolismo do ferro, que é muito antigo e recorrente na saúde pública. É o caso da doença celíaca, uma enfermidade que destrói a região do intestino responsável pelo ferro. Temos também pessoas que sofrem com problemas no estômago e usam produtos que interferem no transporte do mineral, como o omeprazol”, ilustra.
Ribeiro ressalta que o hinokitiol precisa ser mais estudado até se definir que o seu uso pode ser prescrito a humanos. “Precisamos saber quais são as repercussões fisiológicas dessa molécula, se ela não causa problemas ao corpo, se pode causar complicações no sistema cardiovascular, por exemplo, e qual dose seria a segura”, sugere. Os cientistas planejam novos testes com a substância. “Claramente, ensaios clínicos mais extensivos em humanos são necessários para testar todo o potencial e o perfil de toxicidade do hinokitiol”, diz Paw.
Fonte: Correio Braziliense