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Opinião

Casal que escravizou doméstica negra em Minas é condenado a mais de 14 anos

Confira o artigo de Crispiniano Neto desta sexta 19
Redação
19/04/2024 | 07:49

Nos últimos três anos, tenho desenvolvido o hábito de arquivar todos os casos de racismo que saem na imprensa e nas redes sociais, em um ficheiro intitulado “Racismo Hoje”.

Claro que perco alguma coisa, pois são muitos os casos divulgados e meu parco tempo é dividido entre as condições de gestor público, jornalista, poeta e escritor, além, claro, das demandas do cotidiano, pois a vida segue com seus desafios, que, como pedras, surgem ‘drummondianamente’ no meio de cada caminho palmilhado.

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Quase sempre vê-se prevalecer a impunidade. A Justiça só funciona contra pretos, pobres, prostitutas e petistas. Como dizia Eduardo Galeano, “como as serpentes só mordem os pés descalços”, a Justiça não injeta seu veneno em sangue azul que corre por baixo das peles brancas de gente rica ou metida a gente sempre “acima de qualquer suspeita”, mesmo quando pegas em flagrante delito de racismo ou injúria racial.

Uma boa surpresa nos chegou na última terça-feira com a punição imposta à família Rigueira, que escravizou em Minas Gerais a trabalhadora doméstica negra Madalena Gordiano. Alvíssaras!

A família tradicional e cristã ocidental, tão zelosa dos bons costumes e tão denunciadora de qualquer forma de opressão de esquerda, manteve Madalena submetida à escravidão desde 1981, quando tinha apenas oito primaveras, em plena “aurora da sua vida/ na sua infância querida/ Que os anos não trazem mais…”

No raiar da década de1980, ela chegou como uma menininha a ser “criada como se da família fosse”, no lar cristão e conservador dos pais de Dalton César Milagres Rigueira, segundo o Ministério Público Federal.

Em 2005, foi levada por ele para trabalhar em sua residência como um troféu semovente repassado de pai para filho como um bem de herança.

Só foi libertada pelo grupo especial de fiscalização móvel, em novembro de 2020, em Patos de Minas (MG).

A família composta por cidadãos de bem, mas que cometeu “um deslize”, manteve aquela mulher negra em regime de trabalho análogo à escravidão por 42 anos. Foi condenada pela Justiça Federal de Minas Gerais a penas que ultrapassam 14 anos, além de multas e indenizações de quase R$ 1,3 milhão à vítima.
Os réus podem recorrer da sentença em liberdade. Um absurdo, mas são coisas da lei de um país que tem um Código Civil para os ricos e um Código Penal para os pobres… E que, como versou Patativa do Assaré, “Com o grito do dinheiro/ a Justiça não se apruma”.

O resgate jogou luzes coloridas sobre o trabalho escravo doméstico no Brasil e levou ao aumento de denúncias ao poder público.

Como disse Joaquim Nabuco: “Não será fácil acabar a escravidão, mas, muito mais difícil será acabar a obra da escravidão”.