Análise
Isolamento reduz violência no RN; “Mas não é isso que importa”, diz instituto
Para coordenador do OBVIO, é preciso fazer uma leitura eficiente dos dados que alertam para a necessidade de atenção sobre o tipo de violência característico durante o período de distanciamento
Por Felipe Salustino - Publicado em 22/05/2020 às 13:12
Reprodução / Internet
Ivenio Hermes, coordenador do OBVIO
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A Rede e Instituto de Pesquisa Observatório da Violência do Rio Grande do Norte (OBVIO) acaba de divulgar o resultado de mais um estudo. Desta vez, o objeto de análise foi o impacto do distanciamento social no padrão da violência no estado. "O isolamento social contribui para a redução da violência no RN. Mas não é isso o que importa", destaca o cientista criminal Ivenio Hermes.

O estudo aponta que no período de 68 dias de distanciamento, entre 12 de março e 18 de maio deste ano, houve uma redução nos índices gerais de violência no RN e em Natal, quando comparados com o mesmo período de 2019. Os números correspondem respectivamente a uma redução de 20% e 10%.

Uma análise pormenorizada, entretanto, revela que, na contramão dos índices de redução, os casos de violência doméstica e tentativas de homicídio nesse mesmo período de isolamento aumentaram em 258% e 300%, respectivamente.

Violência doméstica e tentativas de homicídio aumentam durante período de isolamento. Imagem: OBVIO

Segundo Ivenio Hermes, mais importante do que analisar apenas a redução dos números em um cenário amplo, é fazer uma leitura eficiente dos dados que alertam para a necessidade de atenção sobre o tipo de violência característico durante o período de isolamento.

“Não adianta falar apenas de números de um modo geral, porque lidar somente com elevação e redução é algo muito simplista. O que importa é entender que nesse momento de pandemia nós estamos presos a uma série de outros problemas que não temos condições de mudar”, avalia.

Para o especialista, o principal gargalo continua sendo a falta de investimentos em segurança pública e em estratégias para a melhoria da situação econômica dos potiguares. “Nós sabemos que não temos efetivo suficiente para trabalhar com a violência e não temos dinheiro para contratar (novos profissionais). É preciso valorizar o agente de segurança pública e melhorar a situação econômica da população, com aumento de emprego e renda”.

Dados

O estudo analisou, em um primeiro momento, os índices de violência nos 19 primeiros dias de isolamento social no Rio Grande do Norte (entre 12 e 30 de março). Na comparação com igual período do ano passado, os dados já mostram uma redução para Natal (30%) e também para todo o estado (25%). Na mesma comparação, contudo, os casos de violência doméstica cresceram 23%.

À medida em que o período de análise foi ampliado para 68 dias, os casos de violência doméstica dispararam e cresceram 258% em relação aos mesmos 68 dias de 2019.

Para Ivenio Hermes, as razões desse aumento são claras. “Nós temos um fator peculiar: o potencial agressor e a potencial vítima estão mais tempo juntos, haja vista que esse tipo de violência se processa no ambiente doméstico”.

O especialista explica que é preciso investir em propagandas de conscientização e de ajuda para as mulheres que sofrem agressão doméstica. “É necessário disponibilizar meios de denúncia online, para que a vítima possa entrar em contato com as delegacias da Mulher e entidades protetoras”, orienta.

Sobre o aumento dos números de tentativas de homicídio, Ivenio esclarece que eles estão ligados às ações de facções criminosas relacionadas ao consumo de drogas.

“Essas facções estão sendo impulsionadas a fazer outro tipo de mercado, porque o comércio da droga está minimizado, por falta de circulação de usuários. Então, eles buscam novas formas de agir, que se convertem no aumento de latrocínios e em tentativas de homicídio, seja por meio de disputas entre si ou porque buscam novas formas de cometimento de crimes”, explica.

O estudo apresenta também como tem se comportado a distribuição da violência por bairros de Natal durante o distanciamento social, em comparação ao mesmo período do ano anterior.

Distribuição da violência por bairros de Natal, períodos de 12/03 a 18/05 de 2019 e 2020. Fonte: Metadados OBVIO

Os dados revelam que em bairros com maior poder aquisitivo, como Petrópolis, Tirol, Capim Macio e Ponta Negra, o número de ocorrência se manteve bastante reduzido em ambos os períodos.

Houve reduções ainda em bairros como Lagoa Nova, Cidade da Esperança, Barro Vermelho e Cidade Nova. Entretanto, bairros com menor poder aquisitivo como Mãe Luiza, Potengi, Pajuçara, Nossa Senhora da Apresentação e Lagoa Azul, apresentaram aumento em todos os níveis de violência durante o período analisado.

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