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Pandemia
Especialistas veem indícios de achatamento da curva do coronavírus em São Paulo
Medida de isolamento social é apontada como uma das possíveis responsáveis pelo achatamento da curva
G1
15/04/2020 | 08:35

O estado de São Paulo encerrou a terça-feira (14) com o registro de 695 mortes causadas pelo coronavírus, metade do número de óbitos previsto pelo governo estadual há uma semana. Especialistas ouvidos apontam que há indícios de que o estado está conseguindo “achatar a curva” de propagação do coronavírus, isto é, retardar o pico de mortes e contaminações pela doença. Eles destacam, no entanto, que o número abaixo do previsto, e o consequente achatamento da curva, são resultados de uma combinação de pelo menos três fatores:

  • O sucesso das medidas de isolamento social;
  • A subnotificação das mortes e dos casos de coronavírus no estado;
  • O atraso no diagnóstico, já que mais de 20 mil amostras ainda aguardam resultado em SP.

Segundo o professor José Fernando Diniz, do Instituto de Física da USP, devido à subnotificação, não é possível saber o tamanho real do gráfico de mortes por coronavírus no estado, mas o formato do gráfico que se forma já mostra um retardamento do pico de contaminações.

Para o médico Munir Ayub, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), “a curva está de fato achatando”, mas ainda existe o risco de chegarmos à previsão de 1,3 mil mortes nos próximos dias, quando os exames que ainda aguardam resultado devem ser solucionados, já que o estado recebeu um lote de 726 mil testes nesta terça-feira. O governo não informa quantas das mais de 20 mil amostras que estão paradas no Instituto Adolfo Lutz pertencem a pessoas que já morreram.

Diniz, que faz estudos com os dados do estado de São Paulo desde o início da pandemia, afirma que é possível verificar que o número de casos e de mortes no estado está crescendo mais lentamente que no resto do país.

Ele explica que, apesar de haver subnotificação nos dois números, os dados que temos atualmente em SP são suficientes para mostrar que o isolamento social está ajudando a “achatar a curva” de contaminação.

“Nós não chegamos hoje aos 1,3 mil [mortos por coronavírus em São Paulo] mais por efeito do isolamento social do que pela subnotificação. A subnotificação deveria respeitar uma lei, quando você olha a curva de casos, se em um ponto dela há subnotificação, nos pontos anteriores ou seguintes também deve haver”, afirma José Fernando Diniz da USP.

Na última quarta-feira (8) o secretário estadual da Saúde, José Henrique Germann, confirmou que existe subnotificação de casos leves de coronavírus em São Paulo. Os pacientes que não ficam internados nas unidades de saúde não são notificados. A exceção são os pacientes com sintomas leves que fizeram exame laboratorial antes da orientação vigente, para notificar apenas casos internados, e que ainda aguardavam resultado.

“Aqueles pacientes que estão em casa, que não farão exames, acabam gerando uma subnotificação em todo o sistema, algo que ocorreu no mundo inteiro da doença, do Covid-19. Pode passar no médico, faz uma consulta e fica por isso mesmo. Então não tem essa notificação [dos casos leves]”, disse Germann em coletiva de imprensa.

Para o infectologista Munir Ayub, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), também há subnotificação de casos graves e de mortes por coronavírus no estado de São Paulo. Ele alerta para a possibilidade de haver um “falso” pico de óbitos pela doença nos próximos dias, resultado da resolução dos milhares de exames parados na fila do Adolfo Lutz.

“Chegaram muitos testes hoje e a previsão é que até a semana que vem esses casos parados vão ser liberados”, afirma Ayub.

“Talvez a gente veja agora um aumento muito rápido do número de pessoas que morreram e que ainda não foram diagnosticados. Podemos ter um pico que na verdade é um diagnóstico atrasado”, explica o infectologista Munir Ayub.

O professor Fernando Diniz também acredita que o número oficial de mortes é inferior ao número real. Este último pode ser mais próximo dos 1,3 mil mortos previstos pelo Butantan para esta segunda-feira.

“Vamos supor que eu mando todos meus alunos medirem uma caixa de 10cm, mas um dos alunos tem uma régua que começa em 3cm. Acontece aí um erro sistemático. A subnotificação causa esse tipo de erro”, explica Diniz. “Na física, a gente consegue descobrir esse erros, para então corrigir e normalizar os dados. Só que a gente não sabe ainda se a régua se a subnotificação no estado está quebrada em 1cm ou 3cm. A gente não sabe quantos casos existem para cada caso oficial.”

Previsão de óbitos em SP

Há uma semana, durante coletiva de imprensa, o governo de São Paulo previu que o estado teria cerca de 1,3 mil mortes por coronavírus nesta segunda-feira (13), já levando em conta as medidas de isolamento social. Nesta segunda, no entanto, o número registrado foi menos da metade deste valor: foram 608 mortes em decorrência da Covid-19 no estado até segunda.

O cenário estimado pelo governo estadual foi apresentado pelo diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, ao lado do governador João Doria, no dia 7 de abril. Dimas disse que eram esperadas, até essa segunda, cerca de 1.250 mortes com medidas de isolamento e quase 5 mil caso a quarentena não fosse adotada.

O diretor do Instituto Butantan foi procurado diversas vezes para esclarecer por que a previsão do instituto não se concretizou nos números oficiais e não respondeu até o momento. Em nota, a assessoria do instituto disse que “o estudo é uma projeção” e que “os dados só comprovam que as medidas de isolamento social adotadas pelo Governo de São Paulo são eficientes a estão ajudando a salvar vidas.” A Secretaria Estadual da Saúde também foi consultada e não se manifestou até a publicação desta reportagem.

Para os próximos seis meses, a estimativa apresentada pelo Butantan há uma semana era de 111 mil mortes com as medidas já implementadas no estado, contra 277 mil sem restrições de circulação.

Falta de transparência

Apesar de ter subido de baixo para bom em avaliação sobre divulgação dos dados do coronavírus da organização OKBR, também conhecida como Rede pelo Conhecimento Livre (Open Knowledge Brazil), a transparência do governo do estado de São Paulo é considerada pior do que a do estado de Pernambuco.

A Secretaria da Saúde de São Paulo mantém orientação repassada a hospitais e postos de saúde para notificar apenas casos graves do novo coronavírus. A exceção são os pacientes com sintomas leves que fizeram exame laboratorial antes da orientação vigente, de notificar apenas casos graves, e que ainda aguardavam resultado.

A instrução provocou manifestação do Ministério Público de Contas do estado, que pediu que o governo voltasse a registrar em sistema todos os casos da doença, sejam eles leves ou graves.

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