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Surto
Contágio de Covid ainda acelera em 60% das grandes cidades brasileiras
Monitoramento da Folha mostra que só 8 controlaram a epidemia, entre elas Recife, Manaus e São Luís
Folha
17/07/2020 | 06:18

Em um mês, o ritmo de contágio da Covid-19 diminuiu consideravelmente em 103 das 324 cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes —ou 32% delas. Em outras 193 (60%), porém, os novos casos continuam crescendo em ritmo acelerado.

Das 27 capitais brasileiras, apenas Manaus, Recife e São Luís têm a situação por ora sob controle, com número reduzido de novas pessoas contaminadas a cada dia.

As duas cidades nordestinas adotaram uma espécie de lockdown após o sistema de saúde chegar ao colapso, e, mesmo após retomarem parcialmente as atividades, têm diminuído significativamente a disseminação do vírus desde meados de junho.

No caso da capital de Pernambuco, três cidades da região metropolitana —Olinda, Camaragibe e Igarassu, além da capital— também registram poucos casos novos. Na Grande São Luís, isso acontece com São José do Ribamar.

Já Manaus foi a primeira capital a ter lotação de UTIs, ainda em meados de abril. O número de mortes disparou, e durante 33 dias os hospitais registraram mais óbitos que pacientes curados. Desde o fim de maio, contudo, o número de novos vem caindo sistematicamente.

Junto com Marituba, na Grande Belém, estas são as únicas oito cidades com mais de 100 mil habitantes em que a epidemia parece estar sob controle.

Para chegar a esses números, a Folha utilizou um modelo estatístico desenvolvido pelos pesquisadores Renato Vicente, professor do Instituto de Matemática da USP e membro da rede Covid Radar (que monitora a doença), e Rodrigo Veiga, doutorando em física pela USP. Eles se basearam em um estudo de epidemiologistas da Unesp.

A análise da Folha levou em conta apenas municípios com 100 mil habitantes ou mais, que em geral têm dados mais consolidados e estáveis sobre a doença do que as cidades menores. Além disso, porque as cidades pequenas tendem a ter menos casos em números absolutos, o registro de algumas poucas infecções novas implicaria um aumento percentual maior.

O modelo se baseia na evolução dos casos em cada local (cidade, estado, país) e tem como parâmetro um período de 30 dias, com mais peso para o período mais recente. Com isso, é medida a aceleração da epidemia, ou seja, a forma como o número de novos casos cresce ou diminui.Os números são atualizados diariamente (a cada atualização, o dia mais antigo da série de 30 dias sai do cálculo).

Ao se considerar os 30 dias nessa análise, a tendência apresentada é mais sólida do que quandolevados em conta períodos mais curtos. Por outro lado, a métrica demora mais para captar mudanças, pois os dados antigos influenciam no comportamento das informações mais recentes.

Folha passa a informar diariamente em reportagens e infográficos o estágio de cidades, estados e o geral do país, de acordo com esse índice de 30 dias.

Métricas como média móvel de sete dias, que a Folha também informa nos balanços sobre a Covid-19, são mais sensíveis para captar eventuais mudanças de tendências, mas também podem mostrar tendências que não virão a se confirmar no médio prazo.

A partir do modelo que considera os 30 dias, a situação da pandemia em cada local avaliado recebe uma classificação. Há cinco possibilidades: inicial, acelerado, platô, desacelerado e reduzida.

A fase inicial é aquela em que surgem os primeiros doentes. Neste momento, o Brasil não tem nenhuma cidade com mais de 100 mil habitantes nessa situação.

A etapa acelerada é aquela em que há aumento rápido do número de novos casos. Dos 27 estados, 16 estão nessa fase —como, por exemplo, Goiás, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Roraima e Minas Gerais.

Na estável, ainda há número significativo de pessoas sendo infectadas, mas a quantidade de novos casos é constante. É o que acontece hoje com a cidade de São Paulo, por exemplo.

Quando o número de novos casos cai ao longo do tempo de maneira considerável, tem-se a fase de desaceleração. Essa é a etapa atual do Amapá (único entre os estados) e em 31 cidades, como Cascavel (PR), Santarém (PA), Parintins (AM) e Rio de Janeiro.

Já na etapa reduzida há poucos casos novos (ou nenhum), levando em consideração o histórico da epidemia naquele lugar. Nesta quinta-feira (16), apenas as 8 cidades citadas no início desta reportagem estavam nessa fase.

“Essas medidas servem como um parâmetro para nos orientar sobre o momento em que estamos. Por exemplo, serve para sabermos se teremos uma onda de estresse no sistema de saúde no futuro e para evidenciar se políticas públicas estão surtindo efeito”, diz o pesquisador Vicente, autor do modelo estatístico.

As cidades que estão na fase acelerada, com o número de novos casos crescendo expressivamente, são 193 —9 delas são capitais, a exemplo de Belo Horizonte e Porto Alegre.

Os números dos estados evidenciam o grande peso que o interior tem sobre a disseminação da Covid-19, inicialmente concentrada nas capitais.

Bahia e São Paulo, por exemplo, são classificados como em situação acelerada. Mas Salvador e a capital paulista —que tem um dos maiores números absolutos de óbitos no mundo— estão no nível de estabilidade.

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