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Projeto Tamar
Comunidades locais protegem tartarugas que desovam na costa brasileira
Foi com esta estratégia que a entidade conseguiu reverter a tendência de redução das populações das cinco espécies de ocorrência no país
Redação
15/12/2019 | 23:16

Mobilizar as comunidades litorâneas do país onde ocorrem desova das tartarugas marinhas é uma das frentes prioritárias do trabalho desenvolvido pelo Projeto Tamar. Foi com esta estratégia que a entidade conseguiu reverter a tendência de redução das populações das cinco espécies de ocorrência no país. Embora ainda estejam todas ameaçadas de extinção, uma melhora do quadro já foi confirmada em pesquisas e está associada à transformação de hábitos humanos e à parceria com pescadores e outros profissionais.

O Projeto Tamar deu início, neste fim de semana, às celebrações de seus 40 anos e Antônio Vieira viveu mais de 30 deles trabalhando na unidade da Praia do Forte, em Mata de São João (BA), a cerca de 80 quilômetros de Salvador. Ele é um tartarugueiro, nome que se dá aos profissionais que participam do mapeamento dos ninhos de tartaruga. Antes de descobrir a nova atividade, ele era pescador e confessa: embora não fosse o foco, era comum que tartarugas fossem capturadas e, quando isso ocorria, o animal virava alimento.

“A gente comia. Naquele tempo não existia Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e não tinha fiscalização nenhuma”, diz. Hoje, segundo ele, a realidade é outra: “Continuam ficando presas nas redes, não tem jeito. Mas quando elas ainda estão vivas, os pescadores soltam. Ninguém mata mais.”

Com atuação em 25 localidades da costa brasileira, o Projeto Tamar gera 1,8 mil oportunidades de trabalho, dos quais cerca de 700 são empregos diretos com carteira assinada. A maior parte desses contratados, como Seu Antônio, são pessoas das próprias comunidades. Além de cumprirem suas tarefas no projeto, eles funcionam como educadores ambientais, pois espalham a mensagem entre os moradores. Quem continuou vivendo da pesca absorve os ensinamentos e muitos colaboram voluntariamente com o trabalho.

“O pescador é quem mais entende de praia. Ele sabe onde estão os animais. Então trazer ele pra conservação foi fundamental. E são multiplicadores da mensagem. Eles a reproduzem para suas famílias. As novas gerações de pescadores estão cada vez mais conscientes”, diz o biólogo do projeto Claudemar Santana, conhecido como Mazinho.

A oceanógrafa Neca Marcovaldi, coordenadora de pesquisa e conservação do Projeto Tamar e uma das fundadoras da iniciativa, cita o impacto econômico que a conservação produz nas comunidades. “Antes viam das tartarugas como possibilidade de subsistência. Hoje, passaram a vê-las como oportunidade de emprego e de desenvolvimento local”, explica.

Na Praia da Forte, o trabalho de conservação transformou a economia das comunidades que viram novas oportunidades se abrirem a partir da atração de turistas. O Museu do Tamar sediado no local está entre os cinco museus mais visitados do Nordeste. O próprio projeto também estimulou outras vocações econômicas nas regiões onde está instalado.

“Com o tempo, nós fomos trabalhando com as mulheres dos pescadores fazendo confecções que hoje são as camisetas vendidas nas nossas lojas. Há locais, por exemplo, onde tradicionalmente as mulheres trabalhavam com bordado. E essa produção se estruturou em uma teia de funcionamento”, diz Neca.

Pé na areia

Antônio conta que sua rotina de tartarugueiro é acordar por volta de 3h30 da manhã e percorrer sete quilômetros diariamente pelas praias em busca dos ninhos. Os ovos ficam enterrados na areia e para achá-los é preciso buscar os rastros deixados pelas tartarugas que já nasceram e de dirigiram ao mar. Considerado um dos mais eficazes neste mapeamento, Antonio não troca a atual profissão pela pesca. “O que eu faço hoje é muito melhor. A gente se emociona e emociona muitas pessoas”.

Após encontrar o ninho, se houver filhotinhos, alguns são recolhidos para identificação da espécie e posterior soltura. O número de ovos já quebrados também são contados. Se há ovos ainda fechados, é fixada uma estaca informativa. Graças ao trabalho de conscientização, isso já é suficiente para que a comunidade entenda a necessidade de preservar aquela área.

“O trabalho educativo é fundamental. Tem que estar na praia. Estão cada vez melhores as ferramentas de pesquisas, que nos ajudam muito, mas o pé na areia é insubstituível. Não adianta ficar só no escritório”, diz Neca. Segundo a oceanógrafa, há outros projetos robustos em países como Estados Unidos e Austrália. No entanto, uma diferença que fez o Tamar ser reconhecido internacionalmente foi ter dado atenção inicial à ação social envolvendo comunidades. A pesquisa científica ganhou mais relevância somente em um segundo momento.

Nas comunidades onde o Tamar atua, informações científicas sobre as tartarugas estão disseminadas entre a população. Sabe-se, por exemplo, que a fêmea desova de três a sete vezes em cada período reprodutivo. Em cada ninhada, ela coloca cerca de 120 ovos. O número parece alto, mas de cada mil tartarugas que nascem, apenas uma chega à fase madura, iniciada por volta dos 30 anos.

“O conhecimento é transformador. Comer ovos e carne de tartaruga fazia parte da subsistência. Meus avós falavam que não tinham muita opção. Tartaruga não era o principal prato, mas se fazia sopa com o animal, se comia a carne. Mas hoje se sabe que são 30 anos para chegar a fase adulta e depois de todo esse tempo ela só alimenta uma família em uma refeição. Acho que quando explicamos isso aos pescadores, começaram a ver com outros olhos”, diz o biólogo Mazinho.

De aprendiz infantil a biólogo

O próprio Mazinho também é fruto de um trabalho comunitário. O projeto Tamarzinhos, criado na Praia do Forte em 1995, oferece formação a crianças e adolescentes nativos. “Em meados de 2001, eu fiquei sabendo que o Tamar estava formando turmas com crianças. E era bem concorrido porque é uma vila pequena, com poucas alternativas, com ensino ainda precário. Então qualquer coisa a mais, atraía muito interesse. Quando eu entrei, com 13 anos, não sabia nada de biologia”, conta.

De aprendiz, ele virou estagiário. De estagiário, ele conseguiu apoio para cursar biologia no ensino superior. Quando voltou, foi contratado. “Deixei o emocional me tocar e foi tudo sem planejamento nenhum. Fui deixando me levar. E tenho hoje o estilo de vida que eu curto. Pé na areia, contato com o mar, com a natureza, com as pessoas. E, sobretudo, encantando pessoas com uma história viva, que é essa história de conservação em favor da natureza”.

Mazinho foi um dos primeiros de sua família a ingressar na universidade e seu exemplo inspirou seu irmão a seguir o mesmo rumo. Ele também atua hoje como biólogo no Tamar. Para Neca, o projeto Tamarzinhos mostra a crianças e adolescentes uma perspectiva de futuro.

“Eles percebem que têm possibilidade de serem biólogos, pedagogos, administradores. E dentro da nossa escala do que é possível oferecer, algumas delas têm o nosso apoio e vão para as universidades. Muitos hoje estão em posição estratégica, coordenando tarefas nas quais participaram no passado como aprendizes e coordenados”.

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