Apesar de o Brasil registrar a menor taxa de desemprego desde 2012, o mercado de trabalho industrial vive um paradoxo: falta trabalhador qualificado. A avaliação consta em nota técnica divulgada na segunda-feira (9) pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que aponta a escassez de profissionais capacitados como um dos principais obstáculos à competitividade do setor.
Segundo o IBGE, a taxa de desocupação no trimestre encerrado em dezembro foi de 5,1%, o menor patamar da série histórica. Ainda assim, o mercado de trabalho apresenta elevado nível de informalidade — 38% das ocupações não têm registro ou proteção social. Soma-se a isso a mudança de perfil da força de trabalho. Pesquisa Datafolha divulgada no ano passado mostra que 59% dos brasileiros preferem atuar como autônomos, proporção que sobe para quase 70% entre jovens de 16 a 24 anos.

Problema ganha relevância no pós-pandemia
De acordo com a Sondagem Industrial da CNI, a escassez de mão de obra qualificada figurava na última posição entre 17 principais preocupações do setor até 2020, com cerca de 5% das menções. A partir da pandemia de Covid-19, o indicador passou a crescer quase ininterruptamente, alcançando 23% das assinalações em 2024.
O entrave chegou ao maior percentual da série no segundo trimestre do ano passado, com 23,3%. No levantamento mais recente, aparece na quarta posição do ranking, atrás apenas da elevada carga tributária, dos juros altos e da demanda interna insuficiente.
Entre as pequenas empresas, o impacto é ainda mais intenso: 28,4% apontam a falta de qualificação como um dos principais problemas, o que coloca o item na segunda posição, atrás somente da carga tributária.
“Sem trabalhador qualificado, as empresas têm dificuldade para aumentar a produtividade, afetando tanto a busca pela eficiência quanto a redução de desperdícios. Na hora de capacitar os trabalhadores, elas esbarram em outro problema: as lacunas na formação educacional, que dificultam o aprendizado e desestimulam os trabalhadores”, afirma o diretor de Economia da CNI, Mário Sérgio Telles.
Capacitação esbarra na educação básica
A nota técnica destaca que as empresas têm ampliado esforços para treinar e requalificar seus quadros, mas enfrentam limitações estruturais. A baixa qualidade da educação básica dificulta o processo de aprendizagem e reduz a efetividade dos programas internos de capacitação.
Outro desafio é a rápida transformação tecnológica e organizacional da indústria, que exige atualização constante das competências. De acordo com o Mapa do Trabalho Industrial da CNI, três em cada cinco trabalhadores precisarão passar por treinamento até 2027. O principal objetivo é alinhar as habilidades dos profissionais — sobretudo os recém-contratados — às novas demandas produtivas.
Para a entidade, a combinação de informalidade elevada, preferência crescente por ocupações autônomas e deficiências educacionais tende a manter a pressão sobre o setor industrial, mesmo em um cenário de recorde de empregos formais no País.