Natal pode ganhar um novo espaço verde às margens da Avenida Engenheiro Roberto Freire, numa área de 100 mil metros quadrados cedida pelo Exército Brasileiro à Prefeitura. A proposta é transformar parte do entorno do Parque das Dunas em um parque linear, com ciclovias, pistas de caminhada, quadras esportivas e espaços de convivência. A ideia, segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), é recuperar uma área já degradada e entregar um equipamento voltado ao lazer, turismo e inclusão social.
O projeto prevê ocupação de apenas 0,9% dos 1.172 hectares do Parque das Dunas. De acordo com o secretário de Meio Ambiente, Thiago Mesquita, o objetivo é conciliar preservação ambiental e bem-estar da população. “Um projeto só é sustentável se garantir serviços ambientais, inclusão social e eficiência econômica. A proposta é plantar o dobro de árvores em relação às que eventualmente precisarem ser suprimidas, recuperar áreas degradadas e criar opções de lazer para todas as idades”, afirmou.

A área cedida pelo Exército foi usada durante décadas para atividades militares e aeromodelismo, já apresentando trechos antropizados e em regeneração natural. O contrato de cessão, assinado neste ano, obriga a Prefeitura a manter a preservação ambiental como premissa. O município afirma que o processo seguirá todas as exigências legais, passando por licenciamento ambiental e consultas públicas.
Além de caminhadas e ciclovias, o parque deve incluir áreas para crianças, idosos e pessoas com deficiência ou do espectro autista. Também estão previstos espaços esportivos e culturais. A Prefeitura promete um modelo de gestão participativa, com audiências públicas, consultas por QR Code e site oficial para colher sugestões da população. “Queremos ouvir o que o natalense espera encontrar nesse parque”, disse Mesquita.
Para o município, o projeto ainda representa ganho turístico. Localizado em uma das principais avenidas da cidade, o parque seria mais uma opção de lazer para visitantes e moradores. Empresários e entidades como Fecomércio e Fiern apoiaram a proposta durante audiência na Câmara Municipal, destacando o potencial de gerar emprego, renda e valorização imobiliária na região.
Prefeitura e Exército defendem parque como presente para a cidade
A cessão foi apresentada pela Prefeitura como uma oportunidade rara de criar um novo espaço público. O procurador do município, Fernando Benevides, rebateu críticas de que o projeto seria ilegal ou traria risco ambiental. “Vai haver parque linear, mas dentro da legalidade, com respeito à legislação e às normas ambientais. Não podemos punir a iniciativa de quem quer entregar lazer e qualidade de vida à cidade”, disse.
O contrato firmado com o Exército garante segurança jurídica à proposta. Segundo Benevides, a cessão foi embasada em parecer da Advocacia-Geral da União. A área já havia sido usada por militares e pelo Aeroclube em atividades que modificaram parte da vegetação. Para a Prefeitura, a ideia é reverter esse processo com reflorestamento e uso ordenado.
Representantes de entidades do setor produtivo também apoiaram a iniciativa. O consultor da Fecomércio, Fernando Virgílio, defendeu que o parque poderá se tornar um corredor de lazer, esporte e turismo. “Não é apenas uma área verde, mas um espaço de convivência que valoriza a Roberto Freire e amplia a mobilidade ativa”, afirmou.
Durante a audiência na Câmara Municipal nesta sexta-feira 22, vereadores da base governista também se alinharam ao projeto, apresentando o parque como um presente para Natal. O vereador Aldo Clemente (PSDB) ressaltou a carência de equipamentos públicos de lazer. “Não é um arranha-céu, é um espaço linear, aberto à população e ao turismo, que vai valorizar ainda mais a cidade”, disse.
Plano enfrenta resistência
Apesar do entusiasmo da Prefeitura e do apoio do Exército, o projeto enfrenta forte resistência de órgãos ambientais e do Ministério Público. A gestora do Parque das Dunas, Mari Soragi, criticou a condução da proposta e classificou como incompatível com o zoneamento da unidade de conservação. “Estamos falando de desmatar 10 hectares de Mata Atlântica em uma unidade de proteção integral. Um parque linear serve para recuperar áreas degradadas, não para abrir novas frentes de ocupação”, afirmou.
A gestora lembrou que o plano de manejo aprovado em 2025 prevê 15,79 hectares para uso público, mas em área diferente da indicada pela Prefeitura. “Não somos contra equipamentos de lazer, mas eles precisam respeitar os limites técnicos e legais. A proposta traz risco de fragmentação ecológica e descaracterização do Parque das Dunas”, disse.
O Ministério Público Federal também acompanha o caso. O procurador da República Victor Mariz afirmou que o projeto ainda carece de informações básicas sobre localização exata, diagnóstico florestal e estudos técnicos. “É preciso verificar a compatibilidade entre a ideia de parque linear e uma unidade de conservação de proteção integral. O desafio é encontrar uma formatação possível”.
Entidades apontaram falhas no processo de diálogo. Para a arquiteta Ruth Maria Taíde, o município deveria ter debatido previamente o projeto.