A Polícia Civil do RN concluiu o inquérito que apurou a agressão cometida pelo ex-jogador de basquete Igor Eduardo Pereira Cabral, de 29 anos, contra a namorada, de 35 anos, no último sábado 26, dentro de um elevador de um condomínio em Ponta Negra, na Zona Sul de Natal. O agressor foi indiciado por tentativa de feminicídio e permanece preso.
No hospital, a vítima relatou os fatos por escrito à equipe da Delegacia Especializada de Pronto Atendimento a Grupos em Situação de Vulnerabilidade (DPAGV), que iniciou as diligências ainda durante o plantão.

Com base nos elementos colhidos e no depoimento da vítima, a Polícia Civil representou pela prisão preventiva do agressor, medida que foi deferida pela Justiça.
O caso passou a ser conduzido pela Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher da Zona Leste, Oeste e Sul (DEAM/ZLOS), que ouviu novamente a vítima, além de quatro testemunhas, dois policiais militares e o investigado.
No relatório final, a Polícia Civil indiciou Igor Cabral por tentativa de feminicídio, com base no artigo 121-A, §2º, incisos I e V, combinado com o artigo 14, inciso II, do Código Penal Brasileiro.
O documento também reforça a necessidade de manutenção da prisão preventiva, justificando a medida pela gravidade dos fatos, periculosidade do indiciado e necessidade de proteção à integridade física e psicológica da vítima.
O inquérito foi encaminhado ao Ministério Público e ao Poder Judiciário.
Atualmente, ele está preso na Cadeia Pública Dinorá Simas Lima Deodato, em Ceará-Mirim, na Grande Natal. Segundo a Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (Seap), o ex-atleta foi alocado em uma ala compatível com seu perfil psicossocial, conforme avaliação interna.
A Polícia Civil reforçou a orientação para que casos de violência doméstica sejam denunciados, de forma anônima, por meio do Disque 181.
Agosto Lilás: os múltiplos rostos da violência doméstica
A neuropsicóloga Tatiana Assunção chama atenção para formas sutis e muitas vezes invisíveis de violência doméstica, que deixam marcas profundas, ainda que silenciosas. Segundo a especialista, o abuso psicológico, como críticas disfarçadas de brincadeiras, gaslighting e manipulações emocionais, pode ser tão ou mais devastador que a violência física.
Tatiana explica que muitos padrões de relacionamento abusivo são reproduzidos de forma inconsciente, enraizados na infância e reforçados em dinâmicas familiares disfuncionais. Crianças que crescem em ambientes violentos podem normalizar esse comportamento, carregando padrões tóxicos para suas relações adultas. “Entender essa cadeia é fundamental para romper o ciclo”, afirma.
Ela destaca ainda que o sofrimento emocional pode ter repercussões físicas, como dores crônicas, distúrbios do sono e transtornos psicológicos. “Há um caminho psíquico que transforma a dor emocional em sintomas físicos. O corpo também adoece quando a alma está ferida”, alerta. Os impactos também atingem as chamadas vítimas invisíveis – filhos, idosos e até animais –, que convivem com o agressor e absorvem silenciosamente os danos da violência.
A saúde mental das vítimas é gravemente comprometida, muitas vezes marcada por sentimento de culpa, medo e baixa autoestima. Por isso, ela reforça a importância de redes de apoio afetivas e institucionais, além do acesso à terapia, como estratégias para reconstrução da autoestima e do protagonismo da vítima.
Tatiana também destaca os sinais de alerta que já aparecem no início de relações abusivas: controle disfarçado de zelo, ciúmes excessivos e isolamento. “Precisamos parar de romantizar o sofrimento em nome do amor. Amor de verdade não anula, não humilha, não machuca.”
No que diz respeito à prevenção, a especialista ressalta o papel da educação emocional na infância, ensinando às crianças como reconhecer comportamentos abusivos e desenvolver a capacidade de dizer “não” sem culpa. Pais atentos e emocionalmente disponíveis são essenciais na construção de filhos mais seguros.
Ela alerta ainda para os riscos da superproteção e da ausência de limites, que podem gerar crianças com baixa tolerância à frustração e comportamento agressivo.
A neuropsicóloga reforça que sair de um ciclo de violência exige coragem, mas também apoio e acolhimento. “A rede de apoio e o processo terapêutico têm papel decisivo na libertação, pois ajudam a vítima a reconstruir sua autoestima e entender que merece ser amada de forma saudável e segura.”