A Folha publicou anotações a mão do ex-presidente Getúlio Vargas, nas quais ele narra como passou de ditador a líder democrata. O depoimento foi escrito de 1945 a 1949, período de reclusão e autoexílio, após a queda do Estado Novo. A seguir transcrevem-se frases e textos sobre as inquietações do líder gaúcho.
Getúlio fez críticas contundentes a correligionários, manifestou desconfiança em relação à democracia e preparou o seu retorno como líder de uma democracia de massas. Para a sua filha Alzira Vargas “são notas de um homem revoltado e consciente”. Justificando ter deixado o poder voluntariamente, alegou que “precisava descansar e permitir que se fizesse a experiência de novo governo”.

Sobre o presidente Eurico Gaspar Dutra, cuja eleição em 1945 se deveu em grande parte ao seu apoio, ele anotou: “Tive um engano. Eu sabia que ele era burro, mas pensava que tinha caráter”. O presidente Getúlio Vargas já havia feito duríssimo diagnóstico de Dutra, ao dizer: “Esse é um homem primário, instintivo, desconfiado, desleal, com ambições superiores ao seu merecimento e cercado por uma camarilha doméstica, civil e militar, que o domina sem contraste, falando ora em nome do povo, ora em nome do Exército, sem representar nem a um, nem a outro”.
Referiu –se a alguns plumitivos (termo pejorativo, escritor ou jornalista incipiente ou sem mérito), que o chamavam de ditador. “O que eles denunciam ditadura é tão melhor do que o que aí está, que o povo já começa a ter saudades. Não sou contrário à democracia. O que sempre afirmei é que a democracia não podia ser simplesmente política, mas também econômica. De que serve igualdade política, sem igualdade social? Julgo apenas que essa democracia que aí está é profundamente reacionária e anárquica” escreveu Getúlio.
Manifestou-se contra os excessos do liberalismo econômico: “Para eles democracia é a liberdade individual para os poderosos do dia fazerem o que entendem, oprimindo aos pobres e humildes ou, pelo menos, passarem indiferentes ante a penúria e o sofrimento alheios. Para eles, o Estado é um Estado polícia, que não deve intervir, senão para garantir os privilégios dos poderosos do dia”.
Getúlio teve sempre rejeição aos deputados Vitorino Freire (MA), a quem chamava de “cabrão”, e Armando Falcão (CE). Ambos o traíram. Ao assumir a presidência acusou-os de corrupção e instaurou inquéritos contra Vitorino ((negócios com o Banco do Brasil), e Armando Falcão (presidente do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos).
Nas suas anotações foi sincero: “Estou farto de política e de políticos”. A propósito, dizia sempre: “desconfio do político que não pede nada. Geralmente, os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem”. Sobre qualificação pessoal dos políticos sentenciou: “Tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa”.
*Ney Lopes é jornalista.