O filme “Sideral”, lançado pela Palma de Ouro de curtas-metragens de Cannes de 2021, pode levar o Brasil à disputa ao Oscar. No próximo dia 24, o nome da produção pode ser anunciado entre os cinco candidatos à estatueta de Melhor Curta de Ficção, uma vez que o filme rodado no Rio Grande do Norte integra a shortlist da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.
Nascido em São Paulo, Carlos Segundo é professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e dirigiu “Sideral”, que é um filme genuinamente do RN com equipe e elenco de profissionais potiguares, estrelado pela atriz Priscilla Vilela e pelo ator Enio Cavalcante. Compõem a trama os atores: Matheus Brito, Fernanda Cunha, George Holanda, Matteus Cardoso e Robson Medeiros.

“Sideral” é uma ficção que se desenvolve em torno do histórico dia do lançamento do primeiro foguete tripulado brasileiro na base aérea de Natal e como isso afeta a vida de Marcela, Marcos e seus dois filhos. Ela é faxineira, ele é mecânico. Porém, a mulher sonha com outros horizontes e almeja escapar da própria realidade.
Sobre a obra, Carlos Segundo já comentou: “Sideral é um filme que passeia de forma sutil por diferentes temas, podendo ainda ser considerada uma obra tragicômica. O filme transita entre os campos poético e realista, conseguindo com isso convergir elementos técnicos e estéticos de uma forma muito singular. É uma obra que só poderia ter sido realizada aqui no Rio Grande do Norte”.
Mesmo com poucos diálogos, o filme consegue transmitir a insatisfação da personagem Marcela em relação à vida que leva. Filmado em Natal, Ceará-Mirim e Parnamirim, “Sideral” é uma coprodução internacional entre as empresas brasileiras Casa da Praia Filmes, O Sopro do Tempo e a francesa Les Valseurs.
Em entrevista concedida ao AGORA RN em julho do ano passado (material inédito que não foi publicado na época), Calos Segundo falou sobre o curta. Confira:
AGORA RN – O que é “Sideral” para você?
CARLOS SEGUNDO – Tenho mais de dez anos de história com o cinema com vários curtas que venho fazendo desde 2009. Sideral inicialmente era um filme que estávamos produzindo dentro de uma lógica de um cinema independente. Eu sabia que o roteiro era potente, tinha uma narrativa interessante para contar e tinha um desafio de filmar na pandemia, então tudo isso dava ao filme ou pelo menos ao processo de produção dele algo singular. Aos poucos, ele foi crescendo até mesmo durante a produção e finalização, e fomos vendo que o filme tinha muita força em termos de atuação, estética e narrativa. Ele foi ganhando seu espaço por ele mesmo. Sideral é um filme que talvez tenha muita característica do meu cinema, mas também do lugar onde eu fiz o filme, Natal, Rio Grande do Norte, que vem ganhando espaço pouco a pouco no cenário nacional e internacional de cinema.
AGORA RN – Como surgiu a ideia de realizar o filme?
CARLOS SEGUNDO – A ideia de Sideral surge entre outros roteiros, na verdade argumentos. Eu tinha algumas ideias de pequenos episódios para uma série de ficção que seria em torno de pequenos núcleos familiares e Sideral era um dos episódios. Mas a série não foi para a frente, a pandemia não deixou nada ir para a frente. Eu pensei esse roteiro e conversei com Pedro Fiuza e Mariana Nardi, da Casa da Praia, e eles toparam entrar, e aí fui desenvolvendo o argumento em um roteiro um pouco mais amplo e mudando algumas coisas. Então é assim que ele surge: dentro de um outro projeto.
AGORA RN – Como você avalia o sucesso do filme?
CARLOS SEGUNDO – Focamos muito na distribuição internacional de festivais maiores. Quando você tem um filme que entra em um festival como Cannes isso já mostra o mérito, já joga ele na vitrine da curadoria internacional. Depois é você saber trabalhar isso. O filme tem força, acerta um grande festival, aí a carreira dele acaba naturalmente acontecendo. Ficamos felizes porque de fato isso só acontece porque conseguimos fazer um filme que tem impacto, que consegue trazer diferentes camadas, social, estética e subjetiva em um filme de 15 minutos, isso é muito relevante para a história do filme.
AGORA RN – A proposta de mostrar “Marcela” como uma mulher infeliz ou cansada da vida e papéis sociais impostos a figura feminina reflete a nossa sociedade atual?
CARLOS SEGUNDO – Sobre Marcela eu acho que não é nem sobre a sociedade atual. Marcela é meio que um arquétipo desse universo feminino histórico no Brasil que vai desde a minha avó até a minha irmã. Então, acho que por isso ela tenha tido tanta força, tenha alcançado e encontrado diferentes públicos. Não é um filme voltado para o cinema de arte apenas, é um filme que também tem força em um público mais comum, acostumado com um cinema mais comercial, tem força no jovem, adulto, velho e claro com o universo feminino. Marcela acaba concentrando na personagem algumas referências muito diretas ou algumas características de vida, de luta, de sofrimento, cansaço que estão presentes em muitas pessoas.l