Política do fariseu: antes ele do que eu
Muitos perigos podem trazer muitas vantagens. Assim é o governo Bolsonaro: muito perigoso, mas muito vantajoso.
O perigo que foi o retrocesso político de Hitler não impediu que muitas boas empresas alemãs que estão ai até hoje se valessem da guerra para prosperar e crescer até que Berlim estivesse em cinzas.

Ai elas se reinventaram com dinheiro guardado dos espólios de guerra. Muitos nazistas encontraram a forca no tribunal de Nuremberg, mas um número infinitamente superior de criminosos de guerra saiu pela porta da frente para contar uma nova história ao lado dos vencedores.
A cisão da elite financeira no Brasil a partir de um ato simples em defesa da democracia,que deveria ser a pauta trivial de qualquer entidade, evidenciou o famoso pragmatismo do empresariado brasileiro.
Enquanto parte do PIB assinou um documento que em tempos normais não daria qualquer estrondo por defender o obvio, neste governo provocou o racha de um setor que raramente se opõe a qualquer coisa que esteja fora de sua pauta de interesses.
Isso, no coração do capitalismo, que é o sistema financeiro, a Federação dos Bancos.
E o que acontece?
Parte desse empresariado, como a construção civil e muitos outros, optou pelo pragmatismo de não bater contra um governo autoritário em torno de uma pauta pacificada – a manutenção democracia.
Outros tantos optaram pelo silêncio obsequioso para não se expor aos holofotes da história, apostando que, qualquer que seja o desfecho, o tempo se encarregará de fechar as feridas.
Mas não deixa de ser esclarecedor, quase auto-explicativo, o comportamento dessa elite financeira.
Dias atrás, a XP Investimentos andou se desculpando com clientes por realizar pesquisas de intenção de voto para a presidência em 2022, que colocam o atual mandatário perdendo até para o poste no segundo turno.
A razoabilidade foi para o espaço pelo menos enquanto durar o mandato presidencial que olha a governança como estorvo e o golpe de Estado (um autogolpe, no caso, já que o mandatário chegou ao poder pelas urnas) como atraente para sua manutenção.
Enquanto isso, a elite brasileira titubeia entre a defesa do futuro e o retorno ao passado em que muita gente se deu bem e saiu melhor ainda depois de contabilizar os espólios de guerra.
Oh linda!
O ex-deputado Roberto Jefferson passou mal na cadeia ao saber que a subprocuradora-geral da República, Lindôra Araújo,uma bolsonarista de carteirinha, o acusara formalmente de incitação ao crime com aquele monte de manifestações criminosas em suas redes sociais. Pobre do Jeferson que precisou ser atendido na sala do diretor por um médico que, em comum com ele, também estava em cana. Mas poderia ter poupado o aborrecimento. No final da denúncia, Lindora pede que “seja apreciado eventual declínio da competência” ao argumentar que o caso não deve ser analisado pelo Supremo Tribunal Federal. Logo, a PGR não tem nada a fazer com a denúncia que iria para a primeira instância.
Só o dinheiro resolve
“No dia que a mulher tiver dinheiro, vai transar com o homem que ela quiser”. A frase é da defensora de mulheres que acusam o médium João de Deus e o cardiologista Nabil Ghorayeb de crimes sexuais. Para Luiza Nagib Eluf, 66 anos, “é preciso tomar cuidado para não acreditar no ‘eu a sustento, querida’. Mulher tem que ganhar bem, tem que ganhar muito. Não pode se satisfazer com o dinheiro que paga a manicure.” Então, está resolvido o milenar problema da discriminação das mulheres.
Kinder ovo
Não é novidade para ninguém que o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes é apelidado por muita gente de “Kinder Ovo” por conta de sua careca reluzente e desprovida de qualquer vestígio de cabelo. Só que no Palácio do Planalto, segundo revela a colunista Bela Megale, do Globo, esse apelido manjado do ministro tem uma explicação lógica e tolinha – o Kinder sempre traz surpresa para o governo.
Máscara, não
Enquanto o país afunda na inflação e na miséria, o presidente Bolsonaro fiscaliza o uso de máscara de proteção contra a covid. No governo dele, não. Daí a angustia dos pesquisadores contratados pelo Ministério da Saúde para analisar cerca de 20 mil estudos para produzir um parecer contrário da pasta sobre uso de máscara. E com o variante Delta comendo solta, dá-lhe angústia!
No tocante a máscara
No início da semana, o presidente voltou a pressionar publicamente o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para que recomende que a proteção seja facultativa. Apesar da investida presidencial, o tema não voltou a ser tratado desde então. E o ministro segue quietinho, quietinho.