A trajetória de Zilson Eduardo Freire reúne elementos que atravessaram praticamente toda a sua vida: a paixão pelo esporte, o compromisso com o trabalho e a dedicação à família. Árbitro de futebol durante mais de duas décadas, profissional do comércio de autopeças e funcionário da Companhia Energética do Rio Grande do Norte (Cosern) por 28 anos, ele morreu nesta quarta-feira 15, aos 91 anos.
Pai do prefeito de Natal, Paulinho Freire (União), Zilson deixa a esposa, Evane da Costa Freire — com quem foi casado durante 66 anos —, além de quatro filhos, oito netos e três bisnetos. O velório acontece a partir das 7h desta quinta-feira 16, no cemitério Morada da Paz, em Emaús, Parnamirim. O sepultamento está marcado para as 10h, no mesmo local.

Natural de Natal, Zilson nasceu em 6 de setembro de 1934, no bairro do Alecrim, onde passou a infância. Em entrevista concedida ao jornalista Rogério Torquato e publicada pelo Diário de Natal em novembro de 2007, ele recordou a infância. “Nasci aqui em Natal, no Alecrim, perto da Igreja de São Pedro, pertinho de um casarão onde funcionou uma vez a rádio Cabugi”, contou.
A formação escolar passou pelo Instituto Rio Branco e pelo Atheneu Norte-Rio-Grandense. Posteriormente, buscou ampliar a qualificação profissional cursando administração no então Colégio Santo Antônio, atual Colégio Marista de Natal, preparação que seria útil anos depois na vida profissional.
Trajetória no esporte
Antes de se tornar árbitro, Zilson tentou carreira como jogador. Atuou inicialmente nas categorias de base do Santa Cruz de Natal e, depois, integrou uma equipe ligada ao Atlético “Menino Travesso”. Jogava como lateral. “Comecei menino no time juvenil do Santa Cruz. Depois, participei da equipe de aspirantes. Eu era lateral direito, às vezes jogava até na esquerda”, relembrou ao Diário de Natal.
A carreira dentro de campo, entretanto, durou pouco. Em 1953, decidiu trocar a bola pelo apito. Fez o curso de arbitragem ao lado de nomes como Jáder Correia, Luiz Meireles e Hermes Araújo. Nos anos seguintes, passou a atuar nos campeonatos estaduais, período em que construiu reputação de árbitro técnico e respeitado.
A atividade, porém, também expunha os profissionais a situações de tensão, comuns no futebol da época. Um episódio marcaria sua trajetória. Durante uma partida no estádio Juvenal Lamartine, na capital potiguar, após marcar uma infração contra o Alecrim nas proximidades da arquibancada alviverde, um coco lançado da torcida passou muito perto de sua cabeça. O pai, Artur Freire, acompanhava o jogo e ficou profundamente abalado com a situação. “Papai disse que imploraria de joelhos para que eu deixasse de ser árbitro”, recordou. Atendendo ao apelo da família, Zilson interrompeu temporariamente a carreira no futebol de campo no fim de 1957.
A pausa, contudo, durou pouco. No ano seguinte, aceitou o convite para integrar o quadro de árbitros da recém-criada Federação Norte-rio-grandense de Futebol de Salão. Encontrou na modalidade um novo espaço para continuar ligado ao esporte que sempre considerou sua maior paixão. O reconhecimento veio rapidamente. Em 1959, foi eleito o melhor árbitro da modalidade no Estado.
Nas décadas seguintes, tornou-se um dos principais nomes da arbitragem de futebol de salão do Rio Grande do Norte. Atuou em competições nacionais e universitárias e viveu um dos momentos mais marcantes da carreira em 1963, quando apitou, em Pelotas (RS), a decisão do Campeonato Brasileiro entre as seleções da Guanabara e de São Paulo.
A experiência acumulada o levou também às funções administrativas. Entre as décadas de 1970 e 1980, dirigiu a Comissão de Arbitragem da Federação Norte-Rio-Grandense de Futebol durante as gestões de Cícero Almeida e Carlos Alberto Nobre, contribuindo para a formação de árbitros e para a organização das competições estaduais.
Carreira profissional e família
Paralelamente ao esporte, Zilson construiu uma carreira profissional igualmente longa. Seu primeiro emprego foi na empresa J. L. Fonseca, especializada em peças automotivas. Permaneceu ali durante 16 anos, adquirindo conhecimento técnico sobre veículos e componentes mecânicos.
Essa experiência foi determinante quando surgiu a oportunidade de trabalhar na Cosern. Em entrevista ao Diário de Natal, lembrou que a companhia procurava um profissional que conhecesse peças automotivas para atuar na área de compras. “O teste foi fácil demais, já que eu mexia há muito tempo com peças”, afirmou.
Ingressou na empresa em 1970 como comprador. Apenas dois anos depois, assumiu cargo de chefia, função que exerceu durante boa parte da carreira. Ao todo, dedicou 28 anos à companhia, encerrando a vida profissional com a aposentadoria.
Enquanto construía a carreira, também consolidava a vida familiar. Casou-se com Evane da Costa Freire, união que atravessou 66 anos. O casal teve quatro filhos: o empresário Paulo Eduardo, o Paulinho, prefeito de Natal; o advogado Sérgio Eduardo; e os dentistas Eduardo Zilson e Zilvane.
A família cresceu com a chegada dos oito netos — Artur, Luísa, Marina, Manuela, Natália, Laura, Fernando e Fernanda — e, posteriormente, dos bisnetos Lucca, Maria Luiza e Maria Helena.
Homenagens
A Prefeitura do Natal decretou luto oficial de três dias e destacou sua trajetória profissional e familiar. Em nota, afirmou que ele deixou “um legado de dedicação ao trabalho e à família”.
Já a Federação Norte-Rio-Grandense de Futebol (FNF) ressaltou que Zilson foi uma “referência” da arbitragem potiguar. Como homenagem, determinou a realização de um minuto de silêncio nas partidas do Campeonato Brasileiro e do Campeonato Potiguar disputadas no próximo fim de semana.
A Câmara Municipal de Natal e a Assembleia Legislativa também emitiram nota de pesar.

“Meu pai foi um grande exemplo de caráter”, diz Paulinho Freire
Ao comunicar a morte do pai, o prefeito Paulinho Freire publicou uma mensagem nas redes sociais lembrando a convivência familiar e os ensinamentos recebidos ao longo da vida. “Hoje me despeço do meu pai com o coração cheio de saudade, mas também de gratidão”, escreveu.
Na homenagem, Paulinho afirmou que os 91 anos de Zilson Freire deixaram “um legado de amor, dignidade e dedicação à família” e recordou os 66 anos de casamento com Evane da Costa Freire.
O prefeito também destacou a influência do pai em sua formação pessoal. “Foi com ele que aprendi, desde cedo, valores que levo para a vida e para a missão de servir às pessoas: o respeito, a honestidade, o trabalho e o compromisso com a palavra.”
Na conclusão da mensagem, afirmou que o pai esteve presente em toda a sua trajetória. “Meu pai foi um grande exemplo de caráter e esteve presente em cada etapa da minha caminhada. Sua força, conselhos e apoio foram fundamentais para que eu chegasse até aqui”, declarou.