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Política

Kelps retira pré-candidatura a deputado federal e desfalca nominata da federação União Progressista

Ex-deputado estadual afirmou que promessas de apoio político e recursos eleitorais não foram cumpridas e criticou Benes Leocádio, João Maia e Robinson Faria
Por O Correio de Hoje
09/07/2026 | 15:23

O ex-deputado estadual Kelps Lima (União) anunciou, nesta quinta-feira 9, que desistiu de ser candidato a deputado federal — decisão que desfalca a nominata da federação União Progressista, formada por União Brasil e PP. Em entrevista ao programa Meio Dia RN, da rádio 96 FM, ele acusou a direção do União Brasil e os deputados Benes Leocádio (União), João Maia (PP) e Robinson Faria (PP) de boicotarem seu projeto eleitoral e descumprirem compromissos políticos assumidos previamente.

Segundo Kelps, a decisão de não ser candidato foi tomada após uma sequência de promessas não cumpridas. Ele cita como episódio decisivo uma reunião realizada cerca de 20 a 30 dias atrás entre Robinson, João Maia, Benes, Allyson e o deputado estadual Kleber Rodrigues (PP). Na versão do ex-deputado, os parlamentares teriam comunicado que compromissos políticos assumidos com ele não seriam executados.

Kelps Lima
Ex-deputado estadual Kelps Lima em entrevista à rádio 96 FM hoje - Foto: Reprodução

O ex-deputado relatou que ingressou no União Brasil acompanhado da promessa de que receberia o apoio de 10 prefeitos que hoje são aliados de Benes, João Maia e Robinson. Segundo ele, o acordo foi discutido em uma reunião na sala do ex-senador José Agripino Maia, presidente do União Brasil, com a presença dos três deputados federais e do prefeito de Porto do Mangue, Francisco Faustino, levado por Kelps como “testemunha da mentira e da presepada”.

Kelps afirmou que passou a estranhar a situação quando os apoios municipais prometidos não se materializaram e chegou a receber a orientação de não tirar fotografias com prefeitos que, em tese, seriam transferidos para seu projeto, sob o argumento de que as bases precisariam ser previamente comunicadas.

Ao longo da entrevista, o ex-deputado assumiu responsabilidade por ter acreditado nos acordos e repetiu que os erros de avaliação foram seus. “Os erros de avaliação foram todos meus”, afirmou. À medida que passou a cobrar o cumprimento das promessas, disse ter sido tratado internamente como inconveniente. “Eu virei aquele cara que, quando o telefone toca, é o chato. ‘Ai, meu Deus, Kelps cobrando’. Eu virei o chato, eu virei o inconveniente.”

O ex-deputado sustentou que a promessa dos prefeitos não foi o único compromisso descumprido. Segundo ele, nenhuma das garantias centrais apresentadas durante a negociação de sua filiação ao União Brasil se concretizou, inclusive a promessa de repasses financeiros através do fundo eleitoral.

Kelps relatou que, durante as negociações para sua filiação, foi recebido pelo presidente nacional do partido, Antônio Rueda, em Brasília e no apartamento do dirigente em São Paulo, ocasiões em que teria ouvido promessas de apoio à construção de sua pré-candidatura. Ele afirmou que, diante da falta de avanços com o União Brasil, chegou a abrir conversas com Republicanos, PSDB e PCdoB antes do fechamento do prazo de filiações e que só não migrou para Republicanos ou PSDB porque essas legendas não conseguiram montar nominatas competitivas para deputado federal.

No fim das contas, decidiu permanecer no União Brasil, segundo ele, após receber novas garantias de que os apoios seriam repassados e de que teria tratamento partidário equivalente ao dispensado a um deputado federal.

O ex-deputado resumiu as promessas recebidas com ironia: “Tudo: o céu, a terra e as estrelas”. Ele contou que ajudou a articular a ida da influenciadora Leila Maia para a federação e ouviu que outras candidaturas robustas seriam construídas para completar a chapa, o que, em sua avaliação, não ocorreu.

Críticas aos deputados

A desistência ocorre apenas duas semanas depois de Kelps afirmar publicamente que reduziria o tom das críticas a Benes, João Maia e Robinson para evitar prejuízos à candidatura de Allyson Bezerra ao Governo do Estado. Nesta quinta, porém, o ex-deputado abandonou a contenção e apresentou uma versão segundo a qual os três deputados trabalharam internamente para inviabilizá-lo.

Na entrevista à 96 FM, Kelps afirmou que, ao ingressar no União Brasil, não assumiu compromisso de mudar suas opiniões e, assim como já tinha feito no mês passado, voltou a classificar a representação do Rio Grande do Norte na Câmara como “fraca” e de “baixo clero”.

A crise dentro do União Brasil, conforme o relato, se agravou quando Kelps passou a nominar os alvos. Ele voltou a dizer que Robinson Faria foi o “pior governador dos últimos 40 anos” e o responsabilizou pelos salários atrasados deixados ao fim da gestão estadual.

Segundo Kelps, a reação foi imediata. “Robinson correu para chantagear Allyson, dizendo que iria retirar a candidatura se eu continuasse falando”, acusou. Na sequência, afirmou que os deputados “correram para calar a boca de Kelps” e passaram a disseminar a avaliação de que suas críticas prejudicavam o projeto de Allyson.

Kelps também declarou que vereadores dispostos a retirar apoio dos atuais deputados para aderir à sua candidatura teriam sido impedidos de fazer a mudança sob o argumento de que isso provocaria problemas internos.

Ao atacar diretamente Benes, foi ainda mais incisivo: “Benes, que foi mentiroso esse processo todo, chegou a dizer que os prefeitos queriam votar em mim”. Em outro momento, afirmou que havia lideranças insatisfeitas com o deputado e interessadas em migrar para seu projeto.

As críticas mais pesadas foram dirigidas conjuntamente aos três parlamentares. Questionado sobre como ficaria sua relação com a federação após a desistência, Kelps respondeu: “Meu nome não é João Maia, Benes e Robinson. Eu cumpro compromisso. Eles três são três mentirosos que não cumprem compromisso”. E acrescentou: “Esse povo não tem palavra, eu tenho palavra”.

Em outro trecho, disparou contra a atuação parlamentar dos colegas de federação. “Quando você é representado por figuras como Benes, João Maia e Robinson, o Rio Grande do Norte tem os índices de pobreza que tem. Porque esses caras não têm compromisso com ninguém. Com ninguém. Só têm compromisso com o poder”, afirmou.

Em seguida, declarou que os três dependeriam de alianças construídas por meio de emendas: “Se você tirar os apoios políticos que eles conquistam com emenda, eles não se elegem vereador em nenhuma cidade do Rio Grande do Norte”.

O ex-deputado afirmou ainda que os três teriam pressionado Allyson a não permitir a transferência de apoios políticos para sua pré-candidatura. “Os deputados chantagearam Allyson para não passar apoio para mim”, declarou.

Perguntado se o pré-candidato ao Governo havia cedido, Kelps procurou preservar o aliado e assumiu a decisão de não exigir um confronto em seu nome. “Eu disse a ele que não se sacrificasse por mim. A decisão foi minha”, afirmou.

Em outro trecho, disse não temer os deputados: “Eu não tenho medinho nem de João Maia, nem de Benes, nem de Robinson. Não tenho nada pessoal contra eles. É esse tipo de gente que representa o Rio Grande do Norte em Brasília?”

Apesar da ofensiva contra integrantes da federação, Kelps reiterou que não pretende atuar para prejudicar Allyson. Disse ter avisado previamente ao pré-candidato que daria a entrevista e contaria “toda a verdade”, mas afirmou que continuará separando o conflito proporcional do projeto estadual.

“Allyson é meu amigo, eu participei da construção do projeto dele, não foi de agora, foi de 2017. Eu avisei a ele que ia dizer toda a verdade, mas não vou servir também de instrumento para prejudicar a candidatura dele. Não vou cumprir esse papel.”

Promessas não cumpridas

Kelps afirmou que o estopim para sua saída se deu quando a direção nacional do União Brasil deixou de responder às suas tentativas de contato.

Segundo ele, o presidente nacional da legenda, Antônio Rueda, que anteriormente o havia recebido e prometido apoio, passou cerca de 35 dias sem atender suas ligações. O ex-deputado relatou ainda que viajou a Brasília na tentativa de discutir pessoalmente a situação, mas não foi recebido.

Por telefone, segundo Kelps, a direção partidária informou nesta semana que compromissos anteriores não seriam cumpridos, embora prometesse recursos durante a campanha.

Foi nesse momento, afirmou, que percebeu ter entrado em uma “cilada”. “Eu sou um cara experiente. Já tinha acabado de cair numa cilada. Me dei conta do tamanho da cilada que eu tinha caído. Esse ambiente não me quer. Não é que eu não quero ser, esse ambiente não me quer.”

Na avaliação de Kelps, os atuais deputados aceitariam sua presença apenas se ele servisse para somar votos à chapa sem ameaçar os mandatos existentes. “Agora me querem se eu não ameaçar, para eu fazer a esteira”, afirmou.

A falta de segurança financeira também pesou na decisão. Kelps afirmou que, após a convenção prevista para 26 de julho, sua campanha precisaria assumir uma conta de aproximadamente R$ 800 mil com gráfica, contando com R$ 3 milhões que teriam sido prometidos pelo partido em recursos eleitorais.

“Se esse dinheiro não chega, eu faço o quê?”, questionou. Segundo ele, a direção comunicou que não cumpriria o acertado anteriormente, mas pediu confiança nas promessas futuras.

“Olha a frase que me foi dita ontem: ‘Nós não vamos cumprir o que combinamos, mas fique tranquilo’. Olha a cara de pau.”

Kelps disse que não estava disposto a assumir contratos de marketing, pesquisas e gráfica sem garantias concretas.

“Nós não cumprimos nada, mas pode abrir uma conta com marketing, pode abrir uma conta de pesquisa, vai na gráfica e bota para atorar no seu CPF, que vai cumprir. Aí, a minha cota de fazer merda eu já tinha esgotado”, declarou.

A preocupação foi reforçada pela experiência da eleição de 2022, após a qual enfrentou dificuldades financeiras.

Transferência de apoio

Kelps confirmou que a saída é definitiva e afirmou que não concorrerá a nenhum outro cargo neste ano.

“Não vou ser candidato a nada. Neste ano, eu vou ajudar meus amigos que me ajudaram até agora”, disse.

Também rejeitou anunciar imediatamente apoio a outro pré-candidato a deputado federal, apesar das especulações envolvendo nomes como Nina Souza (PL) e Dr. Bernardo (PV) e de sua proximidade com outros políticos, entre eles Fernando Mineiro (PT).

“Eu não vou tratar as pessoas que confiaram em mim como se fossem mercadoria. Não há chance nenhuma de eu sentar com ninguém para conversar apoio até o último amigo meu eu ter conversado”, declarou o ex-deputado estadual.