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Economia

RN busca novos mercados diante de ameaça tarifária dos EUA

Estado aposta na União Europeia, China e melhorias logísticas para proteger exportações diante de possível endurecimento das barreiras comerciais dos Estados Unidos
Por O Correio de Hoje
09/06/2026 | 12:47

O Rio Grande do Norte tenta reduzir a exposição de setores estratégicos da economia estadual a uma nova ameaça tarifária dos Estados Unidos. A possibilidade de produtos brasileiros enfrentarem taxas de até 37,5% no mercado americano reacendeu o alerta sobre atividades que já sentiram o impacto de medidas semelhantes, especialmente a pesca e o sal, dois segmentos com forte presença na pauta exportadora potiguar e dependência relevante das compras norte-americanas.

A preocupação voltou ao centro do debate depois que os Estados Unidos abriram novas frentes de pressão contra exportações brasileiras. Uma delas envolve proposta de tarifa de 25% sobre produtos do Brasil. A outra trata de uma sobretaxa adicional de até 12,5%, associada a acusações feitas contra mais de 60 países por suposto uso de trabalho forçado em cadeias produtivas. Na soma, parte das exportações poderia enfrentar carga de até 37,5% para entrar no mercado americano.

Guilherme Saldanha
Guilherme Saldanha crê que novos mercados serão aberto e tarifaço terá fim - Foto: José Aldenir

No RN, o tema é tratado com cautela pelo Governo do Estado e por representantes dos setores produtivos. O secretário estadual de Agricultura, Pecuária e Pesca, Guilherme Saldanha, afirmou que a ameaça preocupa, mas disse não acreditar que uma nova taxação sobre alimentos avance de forma ampla. Segundo ele, os Estados Unidos já enfrentam pressão inflacionária sobre comida, e elevar tarifas de um país fornecedor de alimentos poderia encarecer ainda mais o custo para o consumidor americano.

“Hoje o impacto, o principal problema dos Estados Unidos é a inflação em cima dos alimentos. E você vai taxar um país que manda muito alimento para esses países, para os Estados Unidos? Não faz sentido”, afirmou Saldanha.

A avaliação do secretário considera também o momento político americano. Ele associou a ofensiva tarifária ao governo Donald Trump e disse que novas medidas contra alimentos poderiam ter efeito interno negativo nos Estados Unidos, sobretudo em ano de disputa legislativa. “Ele atravessa hoje um problema de aprovação do seu governo, e esse negócio é eleição. Eleição de meio mandato”, declarou.

Apesar do otimismo, Saldanha reconheceu que a ameaça exige atenção. O tarifaço anterior atingiu diretamente setores potiguares. A pesca foi um dos mais afetados, sobretudo no caso do atum, cuja produção tem os Estados Unidos como principal destino. Segundo o secretário, cerca de 90% das exportações brasileiras de atum são direcionadas ao mercado americano, especialmente para abastecer o consumo de sushi e sashimi. “O Rio Grande do Norte sofreu muito, muito mesmo, com duas atividades, principalmente o pescado”, disse. “As exportações de atum do Brasil, elas quase que, acho que 90%, são direcionadas ao mercado americano, ao mercado de sushi”, acrescentou.

Dados do Observatório da Indústria Mais RN, da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (Fiern), mostram que o Estado exportou US$ 67,1 milhões para os Estados Unidos no primeiro semestre de 2025, alta de 120% em relação ao mesmo período de 2024. A própria Fiern alertou, à época, que pescados costeiros e boa parte do sal produzido no Estado tinham forte presença no mercado americano.

O setor pesqueiro calcula impacto elevado em caso de novas barreiras. O Sindicato da Indústria da Pesca do RN estima que a pesca oceânica exporta cerca de US$ 50 milhões por ano para os Estados Unidos, valor equivalente a aproximadamente R$ 278 milhões. O sal também aparece entre os produtos vulneráveis, em razão da presença do mercado americano nas vendas externas da indústria salineira potiguar.

Na entrevista concedida nesta segunda-feira 8, ao programa Contraponto, da 96 FM, Saldanha defendeu que o Brasil tem força suficiente para buscar alternativas, mas reconheceu que o RN precisa acelerar a diversificação de mercados. Para ele, o agro brasileiro se tornou referência mundial porque consegue abastecer grande parte do planeta.

“O agro-brasileiro é a única atividade do país, da gente, que consegue mandar seus produtos para mais de 180 nações”, afirmou. “O Brasil manda alimento para 180, virou a grande bodega do mundo”, disse. O secretário citou proteína animal, milho e soja como exemplos da capacidade brasileira de atender países que buscam segurança alimentar.

Uma das saídas mais importantes para o Rio Grande do Norte está na tentativa de reabrir o mercado europeu ao pescado brasileiro. A União Europeia suspendeu as compras de pescado do Brasil há quase uma década, em razão de exigências sanitárias e de rastreabilidade. Agora, uma nova auditoria europeia em embarcações e unidades industriais brasileiras abre expectativa de retomada das exportações.

Saldanha afirmou que o tema foi tratado em reunião recente com a governadora Fátima Bezerra (PT) e o ministro da Agricultura, André de Paula. Segundo ele, a União Europeia está enviando técnicos e adidos comerciais para avaliar a cadeia do pescado brasileiro. Empresas do Nordeste e do Rio Grande do Norte já receberam visitas relacionadas a esse processo.

“A notícia que ele nos passou é que a comunidade da União Europeia está mandando adidos comerciais, o pessoal que trabalha no Ministério da Agricultura de lá, para ver a questão do pescado do Brasil”, disse o secretário.

O apresentador Guilherme Neto citou, durante a entrevista, informação repassada por Arimar França Filho, da Produmar e presidente do SindiPesca, de que autoridades sanitárias europeias fariam auditoria em cinco empresas de pesca no Brasil, incluindo a própria Produmar. A inspeção é vista pelo setor como etapa decisiva para reabrir um mercado que já foi relevante para pescado e camarão.

Saldanha avaliou que a reabertura europeia pode representar uma nova frente de escoamento para produtos que hoje dependem fortemente dos Estados Unidos.

“A gente tem uma perspectiva muito boa, reabrindo esse mercado europeu que está parado há muito tempo, se gera uma perspectiva nova, inclusive para o atum, que tem sofrido”, afirmou.

O secretário também apontou a China como alternativa para ampliar as exportações, sobretudo na fruticultura. Ele comentou a estratégia chinesa de buscar mais soberania alimentar, mas disse que o país asiático dificilmente conseguirá reduzir de forma decisiva sua dependência externa, diante de uma população de aproximadamente 1,3 bilhão de habitantes.

“A China tem uma população de 1 bilhão e 300 milhões de chineses. E aí, você precisa pensar na alimentação desse pessoal”, disse.

Segundo Saldanha, a melhora da renda e da qualidade de vida dos chineses aumentou o consumo de frutas, proteínas e alimentos importados.

“Você não consegue, hoje mais, alimentar uma população de 1 bilhão e 300 milhões de habitantes sem precisar das importações de alimento. Isso a China não vai conseguir”, afirmou.

O melão potiguar foi citado como exemplo de oportunidade ainda travada pela logística. De acordo com o secretário, a China planta cerca de 400 mil hectares de melão, enquanto Rio Grande do Norte e Ceará somam cerca de 35 mil hectares, mas a produção chinesa não atende toda a demanda interna. O mercado foi aberto ao produto brasileiro, mas falta escala logística para transformar a autorização em embarques regulares de grande volume.

O secretário explicou que uma parte do melão de maior valor pode seguir por frete aéreo, mas o grande volume precisa ser transportado por navio. Para isso, produtores do RN, do Ceará e de outras regiões precisam reunir carga suficiente para fechar uma embarcação. Segundo Saldanha, seria necessário formar um navio de pequeno porte, com 3 mil a 4 mil toneladas, para levar frutas diretamente à China. A viagem duraria cerca de 28 dias.

O secretário disse acreditar que a solução pode vir da composição de cargas com melão potiguar, uva do Vale do São Francisco e, futuramente, limão de São Paulo, caso o produto também seja liberado pelo mercado chinês.

“De repente, a gente está perto de mandar esse navio direto”, declarou.

A busca por novos mercados também passa por iniciativas institucionais. Saldanha citou ações realizadas na Expofruit, em Mossoró. Segundo ele, mais de 25 compradores de outros países foram levados ao evento para conhecer produtos potiguares e abrir novas possibilidades comerciais. O secretário disse que já há resultados pontuais, como exportação de açaí do Rio Grande do Norte para o Kuwait.

O governo estadual também afirma ter atuado no tarifaço anterior por meio de uma força-tarefa. Saldanha disse que a governadora Fátima Bezerra determinou a reunião dos setores afetados para identificar formas de apoio. Segundo ele, participaram da articulação Cadu Xavier (PT), então integrante da área econômica do governo, Silvio Torquato, ele próprio e outros auxiliares.

“Desde que surgiu o tarifaço, a determinação da governadora Fátima foi chama todo mundo e vamos ver o que a gente pode contribuir, o que a gente pode ajudar”, afirmou.

O secretário disse que a relação da governadora com o presidente Lula (PT) ajudou o RN a ser ouvido nas mesas de negociação.

“O PIB de São Paulo é 33 vezes maior do que o do Rio Grande do Norte. Então, se a gente não fosse lembrado do nosso sal, do nosso mercado, nem na mesa de negociação tinha fraco”, declarou.

Além da diversificação de compradores, o Estado aposta em infraestrutura para ganhar competitividade. Saldanha relacionou a discussão sobre tarifas e exportações à necessidade de um novo porto no Rio Grande do Norte. Segundo ele, o Porto de Natal é útil para a fruticultura, mas tem limitações operacionais, urbanas e logísticas.

O secretário defendeu que o Porto-Indústria Verde pode mudar o patamar econômico do Estado.

“O Rio Grande do Norte precisa de um porto”, afirmou.

O projeto do Porto-Indústria Verde, planejado para o município de Caiçara do Norte, é tratado pelo governo como estrutura capaz de apoiar a cadeia de energias renováveis, hidrogênio verde, combustíveis de baixo carbono e exportações. O BNDES participa da modelagem do empreendimento, que já foi estimado em cerca de R$ 5,6 bilhões em estudos preliminares.

Nesta segunda-feira 8, a agenda do governo incluía a presença de Nelson Barbosa no RN para tratar de contrato relacionado à estruturação do projeto.

Saldanha disse que um porto mais competitivo também ajudaria diretamente a fruticultura. Ele comparou a situação do RN com a do Vale do São Francisco, que exporta frutas de maior valor, como manga e uva, mesmo estando a cerca de mil quilômetros do porto. Segundo o secretário, um contêiner que hoje custa de R$ 6 mil a R$ 7 mil no RN poderia cair para cerca de R$ 3 mil com estrutura portuária mais eficiente. No Vale do São Francisco, afirmou, o custo pode chegar a R$ 28 mil.