A expansão global do uso de canetas emagrecedoras, como Ozempic, Wegovy e outros medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, provocou um efeito inesperado no setor de suplementos alimentares: o aumento expressivo no preço do whey protein. Impulsionada pela busca por maior ingestão de proteína durante processos de emagrecimento, a demanda pelo produto cresceu rapidamente e pressionou os custos da matéria-prima em diversos mercados.
Nos últimos 12 meses, o preço internacional do concentrado de whey protein com 80% de teor proteico, conhecido como WPC 80, subiu até 105%. Nas duas primeiras semanas de maio, a tonelada do produto chegou a € 22 mil — cerca de R$ 128 mil — na União Europeia, segundo dados da plataforma financeira StoneX.

O movimento reflete uma mudança no perfil de consumo do suplemento. Antes associado principalmente ao universo da musculação e da nutrição esportiva, o whey passou a integrar a alimentação cotidiana de pessoas que utilizam medicamentos para emagrecimento e buscam preservar a massa muscular durante a perda de peso.
As chamadas canetas emagrecedoras reduzem o apetite e desaceleram a digestão, o que levou médicos e nutricionistas a reforçarem a importância da ingestão de proteínas para evitar perda excessiva de massa magra. Como consequência, a procura por whey protein aumentou em diferentes faixas de consumidores.
Segundo Tiago Chimelli, CEO da distribuidora de ingredientes proteicos Proteas, o whey deixou de ocupar um nicho restrito ligado apenas ao fisiculturismo. “O nicho virou ‘mainstream’, e as marcas passaram a usar o insumo como fortificante proteico em alimentos em geral”, afirma. Hoje, além dos suplementos tradicionais, o whey já aparece incorporado em chocolates, pães e outros alimentos industrializados.
O concentrado de whey protein é produzido a partir do soro do leite, resíduo gerado durante a fabricação do queijo. Após filtragem, o material retido é transformado em whey protein. Antes, o soro costumava ser utilizado principalmente na alimentação animal.
Apesar do crescimento acelerado da demanda, a produção mundial ainda não acompanhou o mesmo ritmo. De acordo com Chimelli, não há expectativa de recuo relevante nos preços no curto prazo. Segundo ele, novas unidades industriais capazes de ampliar a produção devem entrar em operação apenas entre o segundo e o terceiro trimestre de 2027.
A indústria acompanha a situação com preocupação, especialmente diante da dependência de importações. Uma das empresas que ampliam capacidade produtiva no Brasil é a Sooro Renner, fabricante de concentrado de proteína do soro do leite. A companhia anunciou investimento de R$ 800 milhões em uma nova fábrica em Francisco Beltrão, no Paraná.
Para Juliana Torres, analista de inteligência de mercado da StoneX, ainda pode ocorrer alguma acomodação nos preços nos próximos meses, caso o consumo desacelere ou o mercado se ajuste parcialmente. Mesmo assim, ela avalia que os valores dificilmente retornarão aos níveis registrados antes da explosão da demanda.
“O concentrado de whey tem uma produção pouco regionalizada, com o Brasil dependendo muito da importação dos Estados Unidos e da Europa.” Os Estados Unidos estão entre os principais produtores mundiais do insumo e, segundo especialistas, o consumo interno continua elevado, mesmo diante da alta de preços. Como consequência, os estoques globais seguem pressionados.
Tiago Chimelli afirma que, diante desse cenário, foi necessário reajustar preços para os clientes em cerca de 70%. Fabricantes brasileiros de suplementos também relatam dificuldade para absorver os custos sem comprometer margens de lucro. O CEO da Growth Supplements, Diego de Freitas Rodrigues, afirma que a empresa já precisou realizar dois reajustes desde o ano passado, ambos em torno de 15%.
Segundo ele, a estratégia tem sido buscar alternativas para evitar que todo o aumento seja repassado ao consumidor final. Uma das medidas adotadas foi ampliar a oferta de produtos com menor concentração proteica.
“Grande parte do público, como o usuário de canetas emagrecedoras, não precisa de uma dose tão alta de proteína, como se fosse um atleta de fisiculturismo. Para esse consumidor, lançamos o whey com concentração de 60%”, explica.
A Growth trabalhava tradicionalmente com produtos de 80% e 90% de concentração proteica. O novo suplemento, segundo Rodrigues, é cerca de 40% mais barato do que as versões tradicionais. Além da redução de preço, a empresa avalia que a menor concentração também melhora o sabor do suplemento. Outra estratégia encontrada pelas fabricantes foi reduzir o tamanho das embalagens para oferecer opções mais acessíveis.