Depois do impacto internacional provocado por “Bebê Rena”, lançado há dois anos, o ator, roteirista e criador britânico Richard Gadd poderia ter seguido um caminho mais confortável. O sucesso da produção autobiográfica da Netflix abriu espaço para repetir a fórmula baseada em trauma, humor desconfortável e intensidade emocional extrema. Em vez disso, o autor optou por um projeto ainda mais difícil de consumir.
“Pela Metade” — título brasileiro de “Half Man” — chega ao fim nesta sexta-feira na HBO Max com uma proposta menos acessível, menos acolhedora e mais sufocante do que a obra que transformou Gadd em fenômeno mundial. Em seis episódios, a minissérie constrói um retrato duro da masculinidade como prisão emocional, social e física.

A produção acompanha a relação agressiva e destrutiva entre Ruben, interpretado pelo próprio Richard Gadd, e Niall, vivido por Jamie Bell, ator eternamente associado ao protagonismo de “Billy Elliot”. Criados praticamente como irmãos na Escócia dos anos 1980, os dois crescem presos em uma dinâmica marcada por dependência emocional, humilhação, violência e desejo reprimido.
Ao longo das décadas, a narrativa mostra como esse vínculo contamina todos os aspectos da vida dos personagens e das pessoas ao redor. Não há heróis, vítimas absolutas ou antagonistas claramente definidos. O que existe são homens incapazes de compreender os próprios impulsos — e ainda menos capazes de expressá-los.
É impossível observar “Pela Metade” sem compará-la a “Bebê Rena”, série que redefiniu a carreira de Richard Gadd e se tornou um fenômeno cultural ao misturar honestidade emocional brutal com suspense psicológico. Naquela produção, ao dramatizar perseguição, abuso e compulsão afetiva inspirados em experiências pessoais, Gadd criou uma narrativa profundamente vulnerável e desconfortável.
A nova série preserva vários elementos que marcaram seu trabalho anterior. Os silêncios constrangedores continuam funcionando como ferramenta dramática, enquanto o desconforto físico permanece presente em praticamente toda a experiência narrativa. A obsessão do roteirista por personagens emocionalmente deformados também continua intacta.
Mas há uma diferença central entre as duas produções. Enquanto “Bebê Rena” encontrava humanidade justamente em sua vulnerabilidade autobiográfica, “Pela Metade” aposta em maior distanciamento. A obra assume plenamente sua natureza ficcional e trabalha com uma abordagem mais simbólica, fria e menos emocionalmente conciliadora.
Esse afastamento produz efeitos contraditórios ao longo da série. Em alguns momentos, a narrativa alcança uma brutalidade emocional devastadora. Há cenas em que a violência parece tão próxima que o espectador permanece em estado de tensão constante, aguardando a explosão inevitável. Richard Gadd constrói personagens masculinos que parecem incapazes de existir sem dominar, manipular ou destruir alguém ao redor.
O Ruben adulto surge como uma figura ao mesmo tempo infantil, monstruosa e assustadora. Já Jamie Bell entrega uma das interpretações mais intensas de sua carreira ao transformar Niall em um homem permanentemente esmagado entre medo, fascínio e submissão emocional. A série também aposta deliberadamente na repetição como mecanismo narrativo. Os personagens erram, afastam-se, retornam e voltam a reproduzir os mesmos ciclos de violência psicológica e abuso emocional.
Esse movimento circular acaba tornando a experiência propositalmente cansativa. Em determinados momentos, o desgaste emocional pesa até mesmo para uma produção de curta duração. Ainda assim, é justamente essa recusa em suavizar conflitos que diferencia “Pela Metade” dentro do atual cenário do streaming. Em um ambiente frequentemente moldado por algoritmos, necessidade de identificação imediata e narrativas desenhadas para gerar conforto emocional ou debates rápidos nas redes sociais, Richard Gadd segue interessado em provocar incômodo. A série não parece preocupada em oferecer respostas morais simples.