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Saúde

Gravidez após os 40 exige planejamento e acompanhamento, alertam médicos

Especialistas dizem que fertilidade feminina diminui após os 35 anos e exigem atenção redobrada em gestações tardias
Helliny França
27/05/2026 | 10:37

Cada vez mais mulheres têm adiado a maternidade por diferentes razões, como carreira, estabilidade financeira, relacionamentos e escolhas pessoais. Embora atualmente existam alternativas que permitem planejar a gravidez com mais segurança, especialistas alertam que a gestação em idade mais avançada exige acompanhamento e cuidados redobrados. Isso porque a fertilidade feminina começa a diminuir a partir dos 35 anos, com uma queda mais acentuada após os 40.

A médica ginecologista e especialista em fertilidade, Adriana Leão, explica que essa queda na capacidade reprodutiva acontece principalmente pelo fato da mulher já nascer com uma quantidade limitada de óvulos, havendo uma redução tanto da quantidade, quanto da qualidade ao longo da vida. “Além disso, há aumento dos riscos de alterações genéticas dos embriões e maiores taxas de abortamento”, disse.

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Esteticista Ana Rosa de Medeiros engravidou aos 42 anos. Foto: Cedida

Apesar das sociedades médicas afirmarem que não há uma idade “limite” para engravidar, a médica pontua que após os 40 anos as chances de gestação espontânea se tornam significativamente menores. “Ainda assim, muitas mulheres conseguem engravidar naturalmente nessa fase da vida”.

A especialista relata que a gravidez tardia pode estar associada ao maior risco de complicações obstétricas, como hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, aborto espontâneo, parto prematuro e alterações cromossômicas fetais, incluindo Síndrome de Down.

No entanto, ela pondera que estudos apontam que muitas mulheres acima dos 40 anos conseguem manter uma gestação saudável quando possuem um acompanhamento pré-natal adequado. A médica reforça a importância do planejamento profissional — abordando as doenças preexistentes — antes mesmo de começar a tentar engravidar, além de manter hábitos saudáveis.

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A médica ginecologista e especialista em fertilidade, Adriana Leão. Foto: Cedida

“A avaliação da fertilidade é importante porque nos orienta em relação ao prognóstico reprodutivo. Exame para avaliação de reserva ovariana, como hormônio antimulleriano (AMH) e contagem de folículos antrais, além de investigação hormonal, avaliação uterina, exames clínicos gerais e análise do fator masculino”, explicou a médica.

Segundo a profissional, mulheres acima dos 35 anos que enfrentam dificuldade para engravidar devem iniciar uma investigação mais precoce, especialmente após cerca de seis meses de tentativas, mantendo frequência de relações sexuais entre três e quatro vezes por semana.

A médica destaca que nem sempre a gravidez tardia é considerada de alto risco, porém a idade da mãe é um ponto que merece atenção. Ela explica que o risco da gestação deve ser individualizado levando em consideração o estado de saúde da mulher, doenças prévias, hábitos de vida e evolução da gestação. A especialista em fertilidade explica que o pré-natal de uma gestante tardia demanda um monitoramento mais rigoroso.

“As sociedades europeias e americanas destacam que o pré-natal após os 40 anos geralmente exige acompanhamento mais próximo, com vigilância clínica aumentada e exames específicos para rastreamento fetal e controle de possíveis complicações maternas”, destacou.

A fertilização in vitro é uma opção para a mulher que já realizou tentativas sem sucesso de engravidar espontaneamente, e quando já existe um diagnóstico prévio que possa levar a essa dificuldade como alterações tubárias, endometriose ou condição reprodutiva masculina. Ela é uma das técnicas de reprodução assistida mais conhecidas.

O procedimento consiste em realizar o encontro do óvulo com o espermatozoide no laboratório, formando embriões que serão cultivados e transferidos ao útero da mulher. O processo se divide em quatro etapas distintas: a estimulação ovariana, a coleta dos gametas (óvulos e espermatozoides), a fertilização e cultivo dos embriões no laboratório, além da transferência dos embriões para o útero da paciente. Através da medicina reprodutiva é possível selecionar embriões saudáveis, aumentando as chances de gravidez e reduzindo o risco de doenças.

“Hoje a reprodução assistida evoluiu muito em relação a biópsia embrionária, podendo selecionar os embriões com alterações cromossômicas”, afirmou.

A médica explica ainda que é possível engravidar de forma natural durante o climatério — que é a fase de transição para a menopausa, pois ainda pode ocorrer uma ovulação esporádica, apesar das chances serem menores. Porém, ela explica que em casos onde a menopausa é confirmada as gestações geralmente só são viáveis com reprodução assistida e, na maioria dos casos, utilizando óvulos doados.

“Lembrando que o Conselho Federal de Medicina estabelece a idade limite para técnicas de reprodução assistida só é permitido até 50 anos, após essa idade a responsabilidade passará a ser do médico assistente”, pontuou.

A médica orienta que as mulheres que desejarem ser mães após os 40 anos devem buscar realizar uma avaliação precoce e não demorar para investigar eventuais problemas, caso haja dificuldade para engravidar. E orienta quem quiser adiar a maternidade pode se planejar e optar pelo congelamento de óvulos antes dos 35 anos.

“Hoje vemos cada vez mais mulheres realizando o sonho da maternidade nessa fase da vida, mas informação, planejamento e acompanhamento especializado fazem toda a diferença. O principal fator da infertilidade é o fator idade. Quanto antes realizar o sonho da maternidade, maior a chance de sucesso”, disse.

Maternidade e ciência

O desejo de ser mãe veio pouco antes dos 40 para a empresária Lívia Libório: o tempo foi passando e a ideia amadureceu aos 39 anos quando ela decidiu, junto ao marido, procurar uma clínica de fertilização in vitro. Por já saber os riscos de engravidar nessa faixa etária, Lívia decidiu não tentar naturalmente e partir logo para o acompanhamento especializado em fertilidade. “Optamos pela FIV para que tivéssemos mais segurança, afinal já tínhamos as informações sobre os riscos inerentes à formação do embrião numa gestação em mulheres de mais idade”, explicou.

Para Lívia, descobrir que poderia engravidar através da reprodução assistida foi um misto de emoções. “Saber naquele momento que seria possível engravidar de forma mais segura me encheu de alegria e esperança”. Apesar disso, ela conta que o processo foi desafiador. “Além de lidar com as nossas expectativas como casal e minha, enquanto mulher, também tivemos que lidar com a expectativa do nosso entorno: familiares e amigos que também torciam pelo sonhado ‘positivo’”.

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Empresária Lívia Libório e Eduardo. Fotos: Cedidas

Lívia relata que o momento mais difícil de todo o processo ocorreu após a primeira fertilização in vitro, quando nenhum dos embriões formados apresentou condições genéticas adequadas para a realização da transferência uterina. “Certamente foi o momento mais difícil do processo”.

Em seguida, ela conseguiu engravidar e teve uma gestação tranquila, sem intercorrências, dando à luz a Eduardo na 39° semana de gestação. Hoje, quatro anos após a realização do seu sonho, ela aconselha mulheres que desejam ser mães após os 40. “Se você tem o sonho de gestar seu filho, fortaleça-se na fé e busque o auxílio da ciência. Fé e ciência juntas podem tornar o seu sonho real. E, o melhor, de forma segura e responsável. Esse foi o caminho que resolvemos trilhar e foi a melhor escolha”, disse.

Gravidez inesperada aos 42 anos de idade

A esteticista Ana Rosa de Medeiros entrou no processo da menopausa de forma precoce aos 38 anos após descobrir que sofria de um atrofiamento dos ovários. Ela já estava com 42 anos de idade, fazendo reposição hormonal, e com uma filha de 17 anos já indo para a faculdade, quando engravidou naturalmente de Benjamim.

“Não sentia nenhum sintoma, nada, mas ele estava lá dentro, quietinho. Fiz o exame de farmácia e deu positivo. Fui fazer um ultrassom e, quando cheguei lá, o médico disse: ‘Você já está com 18 semanas de gestação’. Já deu até para ver o sexo, que era Benjamim. E aí foi uma surpresa, um susto, um mix de sentimentos, porque até então eu não tinha planejado”, contou.

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Ana Rosa e Benjamim. Foto: Cedida

Apesar do ‘susto’ inicial com a notícia, Ana Rosa relata que sempre teve o sonho de ser mãe de menino e aceitou o novo membro da família com todo amor. Sua gravidez foi tranquila, ela não apresentou nenhuma complicação. “Eu conto que minha gravidez de Benjamim durou só quatro meses e meio, porque os outros quatro meses e meio eu não sabia, eu não fazia nada de uso de vitaminas, de ácido fólico, de nada. Eu só vivia a minha vida normal. E aí, quando eu descobri, foi que eu comecei a viver a vida de grávida”, disse.

Apesar de enfrentar preconceito quando sai na rua com seu filho, Ana conta que hoje, aos 51 anos, vive a vida que sempre quis: de mãe de menino. “Passo muito por avó dele, o pessoal me pergunta se é meu neto. Mas estamos felizes, graças a Deus”.