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Economia

Estrela pede recuperação judicial para renegociar dívida de R$ 109 milhões

Fabricante de brinquedos cita perda de competitividade, restrição de crédito e avanço das plataformas digitais
Por O Correio de Hoje
21/05/2026 | 12:54

A fabricante de brinquedos Estrela entrou com pedido de recuperação judicial em Minas Gerais para renegociar dívidas de R$ 109 milhões, em meio à perda de competitividade no mercado de brinquedos, restrições de crédito e mudanças no comportamento do consumidor infantil, cada vez mais atraído por alternativas digitais.

A companhia, responsável por marcas tradicionais como Banco Imobiliário, Jogo da Vida, Detetive, Pogobol e Susi, informou ao mercado que a medida decorre da necessidade de “reestruturação do passivo do grupo, em um contexto de pressões econômicas e setoriais relevantes”.

Susi Copia
Boneca Susi foi um sucesso de vendas - Foto: Reprodução

Segundo o comunicado, o aumento do custo de capital, as restrições de crédito e a concorrência crescente de plataformas digitais afetaram a operação da empresa. O pedido de recuperação inclui as oito subsidiárias do grupo, entre elas os braços industrial e de distribuição, além da Editora Estrela e da vertical de cosméticos.

A recuperação judicial foi protocolada em Minas Gerais, onde está localizada a principal fábrica da companhia. Fundada em 1937 pelo empresário alemão Siegfried Adler, a Estrela atravessou diferentes ciclos econômicos ao longo de quase nove décadas e se consolidou como uma das marcas mais tradicionais do setor de brinquedos no País.

A crise, porém, se arrasta há décadas. A abertura do mercado brasileiro nos anos 1990 ampliou a presença de brinquedos importados, sobretudo asiáticos, com preços mais baixos. Segundo executivos e consultores do setor, a mudança reduziu drasticamente a competitividade da empresa.

José Antonio Ferraiuolo, sócio da 2xCapital, consultoria que presta assessoria administrativa e financeira à Estrela, afirma que os problemas se acumulam desde aquele período.

“Desde os anos 1990, a empresa perdeu muita competitividade. Os percalços de mercado vão se acumulando”, disse.

Na época da abertura econômica, o faturamento da companhia chegou a cair 50% em um único ano, pressionado pela entrada de produtos estrangeiros no mercado nacional.

Dados da Abrinq mostram que o faturamento do setor de brinquedos no Brasil alcançou R$ 10,39 bilhões em 2025. Desse total, a produção nacional respondeu por R$ 5,535 bilhões, equivalente a 53% do mercado. Em 2017, a fatia da indústria brasileira era de 59%.

Além da concorrência externa, o setor enfrenta mudanças no perfil de consumo infantil. Jogos eletrônicos, celulares e plataformas digitais passaram a disputar espaço com brinquedos tradicionais, como bonecas, carrinhos e jogos de tabuleiro.

Sócio-diretor da Gouvêa Consulting, Roberto Wajnsztok afirma que a indústria de brinquedos sofre com a redução do interesse das crianças pelos produtos clássicos, mas observa que a exposição da Estrela ao problema é ainda maior devido ao perfil do portfólio da companhia.

Segundo ele, a empresa manteve forte concentração em brinquedos tradicionais, segmento mais afetado pela mudança de hábitos de consumo.

Mesmo diante da crise financeira, os produtos da Estrela seguem presentes no imaginário de diferentes gerações de brasileiros. O Banco Imobiliário, inspirado em negociações imobiliárias e acumulação de patrimônio, tornou-se um dos jogos mais populares do País. Já o Jogo da Vida transformou decisões profissionais e familiares em dinâmica de tabuleiro.

O clássico Detetive atravessou décadas com a proposta de solucionar crimes fictícios, enquanto a boneca Susi, lançada em 1966 como concorrente nacional da Barbie, tornou-se item de colecionador e voltou recentemente ao mercado em ações comemorativas e produtos licenciados.