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Saúde

UFRN amplia debate sobre saúde mental com pesquisa e extensão

Projetos de extensão, pesquisa e formação acadêmica aproximam universidade da comunidade e reforçam atuação da psiquiatria no Estado
Redação
08/05/2026 | 05:08

A integração entre ensino, pesquisa, assistência e extensão universitária passou a ocupar posição central nas discussões sobre saúde mental dentro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Em debate promovido pelo podcast Conexão Saúde, da TV Agora RN, professores ligados ao Centro de Ciências da Saúde (CCS) e ao Departamento de Medicina Clínica defenderam uma atuação mais ampla da psiquiatria, conectada à realidade social, à humanização do atendimento e à expansão do acesso ao cuidado especializado.

O diretor do CCS da UFRN, Antônio Costa, afirmou que a universidade exerce papel estratégico na formação profissional e na produção de pesquisas com impacto direto sobre a assistência em saúde no Rio Grande do Norte.

UFRN amplia debate sobre saúde mental com pesquisa e extensão
Walter Barbalho, Francisco Rodrigues e Antônio Costa, doutores do CCS da UFRN, durante o podcast Conexão Saúde - Foto: Michelle Trindade

“Nós temos pesquisas que vão melhorar protocolos, cuidado e assistência junto à população mundial, do Brasil e local. Essas pesquisas são internacionalizadas, mas têm um impacto local muito importante”, afirmou. Segundo ele, a demanda por atendimento em saúde mental cresceu de forma significativa dentro e fora da universidade. “Essa é uma demanda que a gente vem se dedicando muito a ela, porque realmente vem aumentando bastante”, disse.

Costa também destacou a atuação do Instituto do Cérebro da UFRN, que completa 13 anos de funcionamento e concentra pesquisas em neurociência e saúde mental. “A UFRN hoje tem uma contribuição muito importante nessa área exatamente com essa produção de pesquisa de ponta”, declarou.

No campo da formação médica, o coordenador da disciplina de Psiquiatria da UFRN, Walter Barbalho, defendeu a necessidade de ampliar a preparação dos futuros profissionais para lidar com transtornos mentais já na atenção primária.

“Entre 50% a 60% das pessoas que procuram atendimento na atenção primária têm algum transtorno mental. Esses alunos precisam saber abordar um paciente com esse tipo de queixa, fazer diagnóstico, rastrear transtorno mental e iniciar tratamento”, afirmou.

Segundo Barbalho, a disciplina de psiquiatria busca apresentar diferentes cenários de atendimento aos estudantes, incluindo ambulatórios, enfermarias em hospitais gerais, hospitais psiquiátricos e Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Para ele, a formação precisa considerar a diversidade dos perfis clínicos e sociais dos pacientes.

“O cuidado sai do modelo asilar e tenta se espalhar na comunidade. Cada cenário tem sua importância e seu perfil de paciente”, disse.

O professor também chamou atenção para a necessidade de combater o estigma em torno dos transtornos mentais. “O paciente é muito mais do que a doença. Não é um paciente depressivo, é um paciente com depressão”, afirmou.

Além do ensino formal, projetos de extensão desenvolvidos pela universidade passaram a atuar diretamente em áreas de vulnerabilidade social. O professor Francisco Rodrigues destacou a atuação do projeto Foco de Luz, criado para aproximar assistência universitária e comunidades com dificuldades de acesso ao sistema público de saúde mental.

“Criamos esse projeto para entrar nesses ambientes e trabalhar a mente e o comportamento dessas pessoas tanto de um lado quanto do outro”, afirmou, ao citar ações desenvolvidas em regiões socialmente distintas de Natal, como Petrópolis e Praia do Meio.

Rodrigues defendeu ainda a integração entre ciência, espiritualidade e assistência social no cuidado em saúde mental. “Nosso trabalho na universidade é tentar colocar em prática conhecimentos acadêmicos, filosóficos e espirituais para construir uma sociedade mais fraterna”, declarou.

A universidade também mantém projetos voltados ao atendimento de pacientes em primeiro episódio psicótico, acompanhamento de transtornos bipolares, esquizofrenia, depressão resistente, neurocognição e envelhecimento. Segundo Barbalho, a identificação precoce e o acompanhamento adequado podem alterar significativamente o prognóstico dos pacientes.

“Quando o paciente é bem abordado, o prognóstico é muito diferente. Ele consegue recuperação plena e reinserção social muito mais favorável”, afirmou.

Durante o debate, os três professores doutores também apontaram dificuldades estruturais da rede pública de atenção psicossocial, incluindo superlotação de ambulatórios, fragilidade na articulação entre serviços e insuficiência de vagas especializadas para pacientes em crise.

Para Antônio Costa, a extensão universitária passou a exercer papel decisivo na formação profissional e na aproximação entre universidade e sociedade. “A extensão é uma via de mão dupla. Ela ajuda a formar e também proporciona espaços de prática e engrandecimento para o serviço. A academia vai ao encontro da comunidade”, disse.

Ao final do encontro, os professores defenderam que o principal desafio atual da psiquiatria está em ampliar o acesso da população a um atendimento humanizado, integrado e baseado em evidências científicas, reduzindo o estigma social em torno das doenças mentais e fortalecendo a articulação entre universidade, comunidade e rede pública de saúde.