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Estética

Pressão estética impulsiona geração Z a buscar procedimentos cada vez mais cedo

Exposição nas redes sociais impulsiona cuidados precoces e aumento de procedimentos entre jovens
Por O Correio de Hoje
29/04/2026 | 12:25

A preocupação com a aparência e os sinais do envelhecimento tem se intensificado entre jovens da chamada geração Z, formada por pessoas nascidas entre 1997 e 2012. Especialistas associam esse comportamento à exposição contínua a imagens editadas nas redes sociais, que contribuem para uma percepção mais crítica — e, muitas vezes, distorcida — da própria imagem.

Esse cenário tem refletido tanto no aumento da procura por procedimentos estéticos quanto na adoção de rotinas rigorosas de autocuidado em idades cada vez mais precoces. A lógica de prevenção, antes mais comum em faixas etárias mais avançadas, passa agora a fazer parte do cotidiano de jovens adultos.

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Jovens da geração Z intensificam cuidados - Foto: Freepik

O securitário Raffael Brasil, de 27 anos, é um exemplo desse movimento. Com uma rotina voltada para o cuidado com o corpo e a aparência, ele inicia o dia ainda de madrugada, com suplementação e treino em jejum. Em seguida, consome um preparo com diversos compostos naturais e complementa com vitaminas e minerais. O objetivo, segundo ele, é preservar a vitalidade e retardar o envelhecimento. “Eu gosto muito de ser jovem. Quero que a virilidade, a disposição e o bem estar que tenho hoje durem para sempre. Quanto mais eu adiar os sinais da idade, mais vou sentir que continuo vivendo isso”, afirma.

Aos 24 anos, Raffael começou a realizar intervenções estéticas, como microagulhamento, aplicação de bioestimuladores, fios de sustentação facial, preenchimentos e peelings. Com o tempo, reduziu a frequência e hoje mantém apenas aplicações periódicas de toxina botulínica. Ele reconhece que o excesso de procedimentos já afetou sua aparência: descreve ter ficado com aspecto de “boneca de cera”.

Para a comunicadora de beleza e bem-estar Vanessa Rozan, a preocupação com o envelhecimento sempre existiu, mas ganhou novos contornos com o avanço das redes sociais. Doutoranda em psicologia social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, ela destaca que a exposição constante à própria imagem, somada ao uso de filtros, amplia a insatisfação com a aparência. Segundo ela, esse processo pode estar relacionado ao fenômeno conhecido como “dismorfia do Snapchat”, em que a percepção do próprio rosto se torna distorcida e pequenas marcas naturais passam a ser vistas como falhas.

A discussão também envolve aspectos sociais e geracionais. O gerontólogo Alexandre Kalache aponta que a relação dos jovens com o envelhecimento tem mudado devido à menor convivência com pessoas idosas. “Sempre pergunto aos jovens quando foi a última vez que conversaram por mais de meia hora com alguém com mais de 80 anos que não fosse os avós por obrigação. Quase ninguém consegue responder. Sem essa convivência, essa geração permanece isolada em seu próprio círculo, e vão envelhecer lamentando ter envelhecido”, diz.

A percepção de envelhecer como algo distante e desconhecido pode, segundo especialistas, tornar esse processo mais temido. A falta de referências concretas contribui para uma visão mais abstrata e negativa da velhice.

Entre os próprios jovens, a busca por intervenções já faz parte da rotina. A médica Maria Eduarda Pires, de 24 anos, relata já ter realizado preenchimentos faciais, aplicação de botox e uso de medicamentos para emagrecimento. Em uma consulta voltada inicialmente ao tratamento de bruxismo, acabou aderindo à aplicação estética na testa após sugestão profissional. Ela observa diferenças geracionais dentro da própria família, onde mulheres mais velhas mantêm uma relação mais natural com o envelhecimento.

Nas redes sociais, o tema aparece com frequência entre adolescentes e jovens adultos. Comentários sobre linhas de expressão antes dos 25 anos, preocupações com olheiras e interesse precoce por ativos dermatológicos são recorrentes, evidenciando uma antecipação do cuidado estético.

Dados internacionais reforçam essa tendência. Levantamento da International Society of Aesthetic Plastic Surgery indica que a aplicação de toxina botulínica foi o procedimento estético mais realizado entre pessoas de 18 a 34 anos no mundo. Entre 2018 e 2024, houve crescimento de 29,9% nesse tipo de intervenção, passando de 1,3 milhão para 1,7 milhão de aplicações.

No Brasil, embora não haja recorte específico detalhado para jovens, especialistas apontam aumento consistente na demanda. O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Marcelo Sampaio, afirma que o setor tem se expandido globalmente, com destaque para públicos que antes não buscavam esses serviços com tanta frequência. “O mercado da cirurgia plástica e dos procedimentos estéticos tem aumentado exponencialmente no mundo inteiro, e no Brasil não é diferente. O crescimento ocorreu principalmente entre públicos que antes não procuravam tanto, como os jovens e os homens”, diz.