Desde março, o oncologista Antonio Carlos Buzaid assumiu a direção médica-geral do Centro de Oncologia dos Hospitais Nove de Julho e Samaritano Higienópolis, em São Paulo. As unidades integram a Rede Américas, que prepara a inauguração de um novo centro oncológico na região dos Jardins, onde o especialista também atuará diretamente.
Com passagens por instituições como o Hospital Sírio-Libanês e a Beneficência Portuguesa de São Paulo, Buzaid é reconhecido na área e já esteve à frente do tratamento da apresentadora Ana Maria Braga. Cofundador do Instituto Vencer o Câncer, ele defende que o combate à doença passa por medidas estruturais de prevenção e pelo acesso ampliado a terapias modernas.

Ao falar sobre a redução de novos casos, o oncologista afirma que o foco não deve estar apenas no diagnóstico precoce. “Não só rastreio, mas prevenção. A prevenção com vacina para HPV para o câncer do colo do útero, por exemplo. Rastreio já é tarde. Com o advento da vacina, principalmente a nonavalente, essa é uma doença que tem que ser extinta do planeta”, diz.
Ele ressalta que, mesmo com avanços, o câncer ainda lidera causas de morte em algumas regiões do país e defende políticas públicas mais incisivas: “Se eu fosse o governo, não só daria a vacina de graça. Eu pagaria uma ajuda de custo para que os adolescentes tomassem a vacina. Porque é muito mais caro você tratar um câncer do que dar uma vacina. Muita gente não entende o valor disso”.
Além da imunização, Buzaid aponta a alimentação como fator determinante na prevenção. Segundo ele, cerca de 30% dos casos de câncer no mundo podem estar relacionados à dieta. “Sou um defensor agressivo da importância da dieta. A alimentação é provavelmente responsável por 30% dos cânceres no mundo”, afirma.
Ele também reforça a necessidade de eliminar fatores de risco conhecidos: “Seria preciso banir o fumo completamente. O álcool também é cancerígeno”. Embora reconheça o consumo moderado em situações sociais, ressalta limites: “Eu mesmo bebo um pouco: se tenho uma visita, abro um vinho, tomo uma taça. Sempre com muita, muita moderação”.
O médico é enfático ao criticar alimentos industrializados: “Ultraprocessados são claramente cancerígenos também, deveriam, inclusive, ser banidos das escolas”. Ele também destaca o papel da atividade física e de hábitos saudáveis no funcionamento do organismo. “Atividade física é assunto sério, deveria ser fomentada. Diminui o risco de câncer”, afirma.
De acordo com o oncologista, o impacto desses hábitos está diretamente ligado ao sistema imunológico. “Não só a atividade, mas boas noites de sono e a redução de estresse reduzem os casos porque modulam o sistema imune”, explica. Ele reforça a importância do equilíbrio: “É importante trabalhar nessas quatro grandes esferas: dieta adequada, atividade física, sono reparador e manejo de estresse”.
Buzaid também chama atenção para o impacto do açúcar e de aditivos na saúde intestinal. “O açúcar livre faz bactérias ruins crescerem no intestino e elas suprimem o sistema imune. E o sistema imune é modulado pela microbiota”, afirma. Sobre adoçantes e carnes processadas, alerta: “A carne processada tem nitritos e nitratos, que são provavelmente cancerígenos. E o adoçante porque mexe com microbioma”. Ele menciona o uso pessoal de estévia com cautela, mas reforça que o consumo deve ser limitado.
No campo do tratamento, o especialista critica o tempo de chegada de novas terapias ao Brasil. Segundo ele, há um atraso médio de seis meses a um ano em relação a outros países, e alguns tratamentos sequer são disponibilizados. Um exemplo é a terapia celular conhecida como TIL (linfócitos infiltrantes de tumor), usada em casos de melanoma avançado. “Esse é um tratamento que cura 25% a 30% dos melanomas, quando a imunoterapia convencional não cura. E essa modalidade não existe aqui”, afirma.
Ele observa que o custo elevado limita o acesso global a essas tecnologias. Nos Estados Unidos, esse tipo de tratamento pode ultrapassar US$ 1 milhão. Para contornar as limitações no Brasil, Buzaid aposta na pesquisa clínica. “No Instituto Vencer o Câncer, por exemplo, nós criamos 20 centros. Isso para que o paciente que não conta com seguro possa entrar num protocolo”, explica.
A desigualdade no acesso também se reflete na rede pública. “Não existe imunoterapia no SUS”, afirma. Ele cita o caso de Ana Maria Braga para ilustrar o impacto dessas terapias: “Ela está viva até hoje sem nenhum remédio porque recebeu uma combinação de quimio com imunoterapia”. Segundo Buzaid, a expectativa é de que medicamentos mais acessíveis, como biossimilares, ampliem o acesso no futuro, mas com atraso. “Virão dez anos depois”, diz.
Para o oncologista, o desafio é equilibrar custos e qualidade no atendimento. “Numa medicina responsável, é possível manter o custo relativamente controlado e oferecer padrão-ouro”, afirma. Ainda assim, reconhece as limitações do sistema: “Entristece o médico não poder oferecer aos seus pacientes o absoluto melhor”.
A defesa de Buzaid é: ampliar a prevenção, reduzir fatores de risco e garantir acesso equitativo a tratamentos modernos são caminhos fundamentais para enfrentar o avanço do câncer no País.