No Dia Mundial do Livro, celebrado em 23 de abril, a cena literária potiguar ganha contornos de expansão e fortalecimento. Em Natal, a data foi marcada por encontros entre autores que, cada um à sua maneira, transformam experiências pessoais, inquietações e pesquisa em literatura — ora íntima, ora política, mas sempre atravessada pelo desejo de existir nas páginas e para além delas.
Entre os nomes da nova geração, Vanessa Augusta Cortez, Thaís Dias e Octávio Santiago — três trajetórias distintas que se cruzam no mesmo gesto: o de escrever como ato de presença.

Para Vanessa, autora de Eu Sou o Animal da Minha Mãe, a literatura é também um processo de autorização pessoal. “Parece que tem uma hora que você tem que… Ou você se lança para dizer e se autorizar. Eu sou escritora. Ou você não deslancha”, afirmou, em entrevista à Inter TV.
Com três obras publicadas — entre poesia, coletânea e prosa —, ela descreve a escrita como percurso contínuo: “Ele é fruto de uma pesquisa densa”. O livro mais recente, contemplado pela Lei Paulo Gustavo, nasceu desse mergulho e segue reverberando entre leitores. “Eu acho que a parte do feedback é muito massa. De conseguir entender como isso ressoa nas pessoas”.
Se Vanessa fala de maturidade literária, Thaís Dias representa o impulso inicial — ainda em construção. Aos 25 anos, ela relata que começou a escrever ainda criança. Em 2020, publicou o e-book Acúleo, fruto de um processo independente que incluiu até a diagramação. “Eu fiz basicamente sozinha durante a pandemia”.
Apesar da circulação digital, ela aponta para um desejo recorrente entre os escritores: materializar a obra. “Publicar na internet tem seu lado frio. É um livro, mas não tem páginas amareladas com cheiro de livro. Eu quero poder ter um livro físico meu em casa”. “Eu acho que é uma realização. Você tem um livro concreto, é toda uma sensação”, disse Thaís, sintetizando o apego sensorial que ainda sustenta o objeto livro mesmo em tempos de leitura em telas.
Já Octávio Santiago parte de outro ponto: o incômodo. Autor de Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste, ele transforma investigação acadêmica em narrativa acessível para discutir um tema que atravessa gerações. O trabalho nasceu do incômodo que ele tinha com relação ao olhar torto que parte do Brasil insiste em dirigir contra os nordestinos. O livro, resultado de sua pesquisa de doutorado na área de comunicação, busca compreender a origem e a persistência desses estereótipos.
Segundo ele, os estereótipos foram construídos e mantidos de forma intencional, especialmente a partir do século 20, em meio a disputas por investimentos e narrativas nacionais. Ao trazer relatos próprios e de outros nordestinos, o livro funciona como espelho e denúncia, mas também como tentativa de transformação.
“É muito importante ler autores potiguares”, aconselhou ele. E vai além, ao sugerir uma espécie de autoavaliação cultural: “Quantos autores potiguares eu li esse ano? Quantos autores potiguares eu li ano passado?”. A pergunta, simples, expõe o desafio de romper bolhas e valorizar a produção local em meio à avalanche de referências externas.
Os três autores revelam que a literatura potiguar contemporânea se constrói em múltiplas frentes. Há o rigor da pesquisa, a delicadeza da poesia e o risco constante de se expor ao mundo. “Não vai muito com calma, não. É desconfortável. Tem que ser”, pontuou Vanessa. Ao que Octávio complementa: “É um atrevimento”.