quinta,
Tratamento
Células-tronco são usadas para regenerar cartilagem na mandíbula
Tratamento regenera o tecido perdido na articulação temporomandibular, responsável por movimentos como a mastigação e a fala
Ilustração
Proposta por brasileiros, a intervenção poderá substituir a colocação de próteses

Na altura do ouvido, ligando a mandíbula ao osso da têmpora, fica a articulação temporomandibular, chamada ATM. Ela pode não ser tão conhecida quanto os joelhos e os cotovelos, mas é uma das articulações mais utilizadas do corpo. Basta lembrar que é responsável por qualquer movimento da boca, da mastigação à fala. Além disso, quem já teve algum problema com a ATM raramente esquece.

A articulação e os músculos próximos podem sofrer com as disfunções temporomandibulares, DTMs, um conjunto de complicações que podem causar dor, dificuldades em mover a mandíbula, barulhos estranhos e dor de cabeça. Essas disfunções existem em diversos graus, e as formas mais avançadas causam sérios problemas ao paciente. Em alguns casos, a implantação de próteses é a única solução.

Mas um novo tratamento poderá simplificar a resolução do problema. Uma pesquisa realizada por Ricardo Tesch, chefe do Serviço de Dor Orofacial e Cefálica da Faculdade de Medicina de Petrópolis, no Rio de Janeiro, e Radovan Borojevic, professor emérito do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostrou que um transplante de condrócitos — células-tronco adultas que dão origem às cartilagens do corpo — retirados do próprio paciente pode regenerar tecidos na ATM.

O procedimento está na fase inicial de testes, mas os resultados surpreenderam os pesquisadores. Com o novo tratamento, pacientes submetidos a cirurgias tradicionais que não tiveram o efeito esperado recuperaram grande parte da cartilagem perdida e até tecido ósseo. O transplante pode se tornar uma alternativa às próteses, caras e invasivas, que precisam ser trocadas periodicamente. O estudo foi apresentado no III Congresso Brasileiro de Dor Orofacial, no mês passado, em São Paulo, e a publicação do artigo está sendo avaliada pela revista Stem Cells Translational Medicine.

Travamento

Segundo Juliana Stuginski, cirurgiã-dentista especializada em DTM, existem dois tipos de disfunção, além das complicações nessa região geradas por problemas de crescimento e traumas, que são mais raros. “O primeiro tipo é o das disfunções musculares. É o mais comum, corresponde a 80% dos casos. Existem também as disfunções articulares, que podem ser de vários tipos”, lista.

A osteoartrose é um tipo de DTM. Ela acontece quando a cartilagem que envolve a ATM e protege os ossos do atrito se degenera, o que os expõe ao desgaste. Pode aparecer sem sintomas, indolor, mas também causar rigidez na região, dificuldades em mover a boca e até o travamento da mandíbula. “Essa cartilagem tem muita dificuldade de se reparar sozinha. Ela não tem vascularização”, afirma o pesquisador Ricardo Tesch. “As células-tronco adultas do corpo não conseguem chegar ao local.” Segundo ele, o transplante de condrócitos faz justamente isso: leva para a articulação células capazes de regenerar o tecido.

Simplificação

O procedimento proposto pelos pesquisadores brasileiros não é novo. Foi aprovado pelo órgão regulatório americano Food and Drug Administration, a FDA, na década de 1970, se tornando a primeira terapia celular não hematológica reconhecida. Desde então, é bastante usado na recuperação de outras cartilagens, como nos joelhos e cotovelos. “O que limita esse tipo de tratamento é a área doadora. Não se pode retirar um pedaço de um dos joelhos para tratar o outro”, afirma Ricardo Tesch.

Como vantagem, o tratamento desenvolvido por ele e os colegas usa condrócitos retirados do septo nasal, uma área de fácil remoção cuja cartilagem muitas vezes sobra em procedimentos cirúrgicos, como para corrigir o desvio de septo. Além disso, essa retirada não causa lesão em uma área que exerce esforço. “Nós fazemos uma biópsia e capturamos condrócitos do próprio paciente. Essas células são isoladas e reproduzidas até chegar a um número de 10 milhões”, detalha o pesquisador. Essa reprodução das células é feita em um centro de tecnologia celular e pode levar entre 15 e 20 dias.

Sem rejeição

Após uma lavagem da ATM, conhecida como artrocentese, os condrócitos são injetados no local junto com ácido hialurônico, um líquido presente naturalmente nas articulações. Nos testes com pacientes em estágios graves de DTM, os condrócitos criaram cartilagem no local lesado, substituindo a área desgastada, e até recuperaram o tecido ósseo. Os participantes foram acompanhados até seis meses após o procedimento, e os resultados se mantiveram.

Como as células vieram dos próprios pacientes, não houve casos de rejeição. Apesar de ainda estar nos ensaios clínicos, o tratamento se mostrou eficaz e promissor. “Para o artigo (de publicação da pesquisa), usamos um paciente que já estava condenado à prótese. Surpreendentemente, obtivemos uma reconstrução completa. Nós esperávamos uma melhora, mas não nesse nível”, relata Ricardo Tesch.

A pesquisa usou pacientes com uma versão muito avançada de disfunções temporomandibulares. Os voluntários apresentavam até deslocamento da mandíbula causado pelo desgaste na articulação. “Algumas pessoas têm a mandíbula deslocada para trás. Na cirurgia de correção, a mandíbula é levada para frente, mas a articulação sofre com a carga aumentada e se desgasta mais. O paciente perde a cirurgia toda”, conta o investigador.

Risco maior para mulheres em idade reprodutiva

A osteoatrose é um problema frequente. Pode surgir, por exemplo, por uma sobrecarga na articulação temporomandibular (ATM), como ocorre no bruxismo, caracterizado quando a pessoa aperta ou range os dentes involuntariamente. Há a possibilidade de a cartilagem se reparar sozinha, mas há um limite de autorrecuperação. Mulheres em idade reprodutiva têm risco maior de sofrer a complicação. Ricardo Tesch, pesquisador e chefe do Serviço de Dor Orofacial e Cefálica da Faculdade de Medicina de Petrópolis, no Rio de Janeiro, explica que as flutuações nas taxas hormonais podem deixar a ATM mais frágil e suscetível a danos. “São mulheres jovens, e essa ansiedade do mundo moderno aumenta os casos de apertamento e bruxismo”, explica.

Atividades aparentemente inofensivas também desencadeiam o problema. “Mascar chiclete por muito tempo, morder objetos…”, exemplifica a cirurgiã-dentista Juliana Stuginski. “Usar uma articulação com carga acima da qual ela está preparada muda o formato do osso. Você pode ter sem sentir dor”, alerta. Quando o problema está nos estágios iniciais, é feito o controle dos sintomas e exercícios fisioterápicos para devolver o movimento e aumentar a lubrificação do local. Mas conforme ele evolui para estágios avançados, as próteses se tornam a única opção.

Além de colocadas por meio de procedimentos invasivos, são caras e temporárias. “Elas têm uma vida útil. A cada 20 anos, o paciente tem que trocar. Como essa doença afeta muitas mulheres jovens, elas têm que fazer três, quatro cirurgias durante a vida”, conta Ricardo Tesch.

O tratamento que ele e colegas estão desenvolvendo poderá ser uma opção mais viável a esses pacientes, segundo Juliana Stuginski. “É uma tentativa do próprio organismo de remodelar o osso que se perdeu. Faz com que as células se formem de novo, modelando o contorno ósseo. O condrócito é uma célula precursora, forma a cartilagem de novo, o que a gente não consegue em nenhum tratamento atual. Mas é importante lembrar que esse é um estudo experimental, em fase muito inicial”, ressalta.

 

 

Fonte: Correio Braziliense