Entrevista
“Desunião da classe política do RN tem causado perda de grandes lutas”, diz Geraldo Ferreira
Presidente do Sinmed-RN comentou também o pacote fiscal proposto pelo governo; a greve dos médicos; o papel do município e do Estado na Saúde, e seus interesses na política
José Aldenir / Agora Imagens
Geraldo Ferreira, presidente do Sinmed-RN, criticou atuação da classe política do RN

O presidente do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte (Sinmed-RN), Geraldo Ferreira criticou a classe política potiguar, afirmando que ela não tem trabalhado satisfatoriamente em defesa da população; ele citou outros estados nordestinos, onde enxerga que políticos trabalham em uníssono, independentes de siglas, gerando melhorias para o povo. Ferreira creditou todas as derrotas “nas grandes lutas que o RN tem tentado” a essa desunião.

“Nossa classe não tem trabalhado em uniformidade. Na Paraíba, Ceará, Pernambuco noto que, independente dos partidos, eles defendem os interesses do povo com força e intensidade. Aqui há uma disputa de caráter entre partidos e grupos. Se não mudarmos, não vamos conseguir. Temos perdido todas as grandes lutas que o RN tem tentado nos últimos tempos”.

Ferreira comentou ainda, ao Agora RN, os reflexos do pacote fiscal proposto pelo Governo do Estado; a greve dos médicos; o papel do município e do estado no segmento da Saúde, bem como seus interesses na política para este ano de eleições. Confira a entrevista:

Jornal Agora RN – Recentemente o governo propôs um pacote fiscal na Assembleia na tentativa de aliviar a economia estatal. Como o senhor viu este plano do governador Robinson Faria (PSD)?

Geraldo Ferreira – Sabemos que a crise é intensa, mas as medidas que Robinson está tomando agora deveriam ter sido feitas no primeiro ano do governo; ele deixou esse prazo escoar e a situação se agravou.

JARN – Como a classe trabalhadora reagiu ao pacote de medidas do governo?

GF – Os sindicatos se uniram porque o que se sentiu é que a conta estava sendo jogada nos ombros do funcionário público. A luta se desenvolveu com muita dificuldade e tivemos a preocupação de centralizar algumas coisas das quais não abriríamos mão. Uma delas era o opcional por tempo de serviço. A proposta do governo era extinguir e transformar aquilo numa vantagem pessoal. Quando percebemos essa possibilidade de perda patrimonial, tentamos negociar com a Comissão de Justiça da Assembleia. Os deputados acharam por bem retirar da pauta; foi uma pequena vitória.

JARN – E a proposta do aumento da alíquota previdenciária para quem ganha mais?

GF – Não achamos interessante. Quando se diferenciam os trabalhadores, começam-se a dividir as lutas entre as categorias. Achamos que deveria ser escalonado ao longo dos anos. A alíquota vai atingir diretamente o bolso do trabalhador com aumento de 3% (de 11% para 14%), é uma perda salarial. A proposta de negociação que fizemos foi de parcelar.

JARN – E qual o balanço que o senhor faz das tratativas entre o sindicato e o governo?

GF – Houve muita dificuldade de negociar com o governo, mas tenho que fazer um elogio à Assembleia. Reconheço que tivemos diálogo e mais compreensão. Acho que avançamos por lá.

JARN – Como o senhor avalia o governo administrando os problemas de atrasos salariais?

É como um lençol curto; puxa-se o lençol de um lado, cobre-se ali, mas do outro lado fica descoberto. Quando houve a greve dos policiais, outras categorias foram sacrificadas para pagar a Segurança. Não há nas conversas uma luz sobre calendário, o governo disse que vai depender de controle de gastos e de aumento de arrecadação, e isso gera uma ansiedade muito grande.

JARN – Há alguma perspectiva de quitação dos salários atrasados, como o 13º?

GF – Neste momento os ativos da Saúde aguardam apenas o 13º, já os aposentados estão com o salário de janeiro atrasado; hoje pagaram dezembro. Não há perspectiva para ambos os casos.

JARN – Diante dessa situação a greve tende a continuar?

GF – A greve continua porque funciona como um mecanismo de pressão. Sem greve, o governo não se mexe. Infelizmente sabemos que o único instrumento do qual o trabalhador dispõe é a greve.

JARN – Como funciona a greve dos médicos? A população fica desamparada?

GF – Não. A nossa greve tem características bem diferentes. Não suspendemos o atendimento de urgência e emergência. Os ambulatórios são de complexidade mais alta e o próprio médico sabe que não pode suspendê-los totalmente. Mantemos um nível elevado de atendimento, até porque a Saúde está tão precarizada, que agravar isso doeria muito no profissional.

JARN – Em relação à estrutura, o que o governo tem feito para melhor a Saúde no Estado?

GF – A única que coisa que ouvimos em relação à Saúde é de mais fechamentos de hospitais… como se fechar hospital no interior e trazer cinco médicos de lá para a capital fosse resolver. O problema de Natal não é de recursos humanos, exclusivamente, é de superlotação. O único projeto de Robinson na Saúde tem sido fechar hospitais, e isso é um desastre.

JARN – E qual é a solução?

GF – O governo insiste em modelos segmentados de assistência à saúde; acho que esses modelos, como “hospital da criança” ou “da mulher”, não vão resolver a crise da saúde no RN, isso passa por hospitais gerais, que deem respostas aos exames de média e alta complexidade.

JARN – Como o senhor analisa a preocupação do município de Natal com a Saúde?

GF – Não conseguimos notar melhora. Sabe por quê? Porque normalmente quando se abrem serviços no município, eles vêm acompanhados pela desativação de outros. Abre-se uma estrutura em Natal, fecha-se uma do Estado. Muitas vezes isso é acobertado por marketing. O Hospital Municipal é tratado como tal, mas é só um pronto-atendimento. Na eleição passada, a Saúde teve peso para Carlos Eduardo porque houve o que mostrar, mas foi a mesma coisa que trocar seis por meia dúzia.

JARN – Por falar no prefeito, qual é a situação atual do Plano de Cargos e Salários da categoria dos médicos que ele ficou de implementar?

GF – Ele negociou o plano por meio do secretário de Saúde, aceitou que seus líderes na Câmara de Natal o aprovassem e o sancionou, mas Carlos Eduardo segue sem implantá-lo. Isto é ruim, porque a prefeitura tem um custo altíssimo com terceirizados. Com o plano se consegue, a um preço menor, fazer as estruturas funcionarem. É um dever do prefeito implantar o plano.

JARN – Mudando para o tema da política, seu nome tem sido cogitado para as eleições em 2018. O que o senhor pode nos falar a respeito?

GF – Neste momento, eu me coloco como pré-candidato a deputado federal pelo PPS dentro de uma coligação de partidos (provavelmente oito), com pessoas sem histórico de disputas nesses cargos. O intuito é renovar. Vou atuar dentro da estrutura partidária, do meu segmento da Saúde, do segmento dos trabalhadores e do cooperativismo; são neles que me amparo para apresentar meu nome à sociedade. Temos a pretensão de fazer dentro da coligação três [candidaturas] estaduais e uma federal.

JARN – Por que o senhor resolveu entrar no âmbito político?

GF – Coloquei meu nome à disposição de meu partido (PPS) após ver que o povo clama por mudanças. Em todas as categorias sociais só se fala que está na hora de mudar a política nacional, o que traria reflexos naturais ao RN. Só que a renovação só é feita com pessoas comprometidas e que tenham histórico. Não adianta ir via aventureirismo; tem que ter prestado serviços, trabalhado pela comunidade e gerado resultados. Além disso, em meus agrupamentos de médicos, sindicatos e cooperativas, que são os eixos onde tenho atuado ao longo de minha trajetória como liderança de classe, tenho visto manifestação unânime a favor de nomes que surjam desses grupos. Há estímulo para que eu possa dar sequência a esse projeto de apresentar meu nome.