segunda, 27 de fevereiro de 2017
Incríveis
Como cachorros salvaram as vidas de moradores de uma cidade nos EUA
No ditado popular, cães são nossos melhores amigos. Mas há ocasiões em que também são nossos salvadores
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Ilustração
Hoje, cães dessa raça competem em corridas de trenó e volta e meia superam alguns dos mais rápidos atletas humanos

Em 1925, a pequena cidade de Nome, no Estado americano do Alasca, estava sendo assolada por uma epidemia de difteria. Para proteger os habitantes, 20 times de cães puxadores de trenós transportaram soro por mais de 1 mil km de gelo e neve, em apenas seis dias, enfrentando um dos mais brutais invernos em muitos anos.

Dos cães que participaram da Corrida do Soro de Nome, os mais celebrados foram dois huskies siberianos chamados Balto e Togo.

Hoje, cães dessa raça competem em corridas de trenó e volta e meia superam alguns dos mais rápidos atletas humanos. Em distâncias superiores a 16 km, eles são o mais rápido mamífero terrestre.

Mas como os cães salvaram Nome?

Huskies foram introduzidos na região por um comerciante de peles chamado William Goosak durante a Corrida do Ouro na região do Yukon no início do século 20. Ele havia notado o potencial dos animais, usados pela tribo Chukchi, da Sibéria.

Por milhares de anos, os Chuckchi empregaram huskies para transporte ao longo da tundra ártica. Cruzamentos seletivos criaram o cão puxador de trenó ideal, perfeito para as condições gélidas e uma vida de trabalho pesado.

Em 1909, Goosak inscreveu seus cães na Grande Corrida do Alasca, um percurso circular de 657 km entre Nome e Candle que vinha sendo dominado pelos malamutes, uma raça local.

Os “ratos siberianos” de Goosak, como os cães foram apelidados, tinham metade do tamanho dos malamutes, mas terminaram a corrida em terceiro.

Os malamutes eram mais fortes, mas os huskies eram mais rápidos. E suas habilidades estão baseadas em uma combinação de tamanho e forma.

“Cães maiores têm passadas mais largas e cobrem mais terreno, mas sua massa faz com que superaqueçam”, explica Raymond Coppinger, do Hampshire College, em Amherts (EUA), e coautor de um manual sobre cães.

“Os huskies são menores, geram menos calor e têm a mesma área de pele para dissipação, então, mantêm a temperatura.”

Isso pode até sugerir que chihuahuas seriam melhores para puxar trenós, mas é claro que eles são pequenos demais.

Na verdade, os huskies são uma espécie de “cachinhos dourados” do mundo das corridas de trenó: nem muito grandes, nem muito pequenos, com o ângulo certo de pélvis, comprimento das costas e largura dos ombros, o que permite passadas longas.

Eles também galopam, sempre mantendo ao menos uma pata em contato com a neve. E isso é crucial.

Galgos são mais rápidos que os huskies, por exemplo, mas eles meio que saltam. É uma ótima técnica para corridas de velocidade, mas desastrosa para puxar um trenó. O trenó puxaria os galgos para trás todas as vezes em que eles “decolassem”.

Na Grande Corrida do Alasca de 1910, um time de huskies venceu. Eles pertenciam a um piloto de trenó chamado Leonhard Seppala.

Essa vitória seria lembrada em janeiro de 1925, quando as autoridades de saúde da cidade se viram às voltas com a epidemia de difteria.

A difteria é uma infecção bacteriana que afeta principalmente o nariz e a garganta. Se não for tratada, pode ser fatal. Hoje, é uma doença rara, porque a maioria das pessoas é vacinada contra ela, mas não era assim em 1925.

O surto em Nome veio na pior hora possível. O vilarejo estava isolado pelo mais severo inverno em 20 anos e não havia estoques locais de soro.

Médicos previam uma mortalidade de 100%, já que o lugar mais próximo para buscar soro era Nenana, a 1.085 km de distância. Em 24 de janeiro, ficou decidido que um revezamento de trenós transportaria o soro de Nenana até Nome.

Vinte times se posicionaram ao longo da rota. Seppala estava escalado para a penúltima etapa da viagem, entre Shatoolik e Golovin.

A rota inteira normalmente exigiria 25 dias de viagem, mas era tempo demais, já que as condições brutais de inverno estragariam o soro em apenas seis dias.

Ou seja: os cachorros precisariam completar a jornada em menos de um quarto do tempo normal.

O primeiro desafio era simples: não morrer congelados. Huskies siberianos têm uma segunda camada de pelos, de acordo com a patologista veterinária Kelly Credille. Isso forma uma espécie de proteção extra que retém o calor junto ao corpo.

Eles também usam suas longas e peludas caudas para respirar ar quente a noite toda ao cobrir o focinho com elas enquanto dormem.

“Também descobrimos que os huskies podem criar uma camada protetora de pelos que ‘hiberna’ em vez de crescer”, explica Credille.

Outras raças precisam ter o pelo tosado, porque a maioria de seus folículos está crescendo ativamente, ao contrário dos huskies. E isso os ajuda a conservar energia.

“O pelo é feito a partir de proteínas e lipídios, e os huskies preservam isso ao esperar por um momento em que o tempo melhora e o alimento fica mais abundante para seu pelo crescer.”

A maior parte dos condutores trenós da Corrida do Soro de Nome sofreu com a gangrena causada pelo frio nas mãos e rostos, uma consequência da exposição de humanos ao frio extremo, já que, para proteger nossos órgãos vitais, concentramos o sangue no centro do corpo, deixando nossas extremidades vulneráveis.

Por sua vez, cães não perdem tanto calor pelas extremidades. Vasos sanguíneos na sola das patas o retém, explica Dennis Grahn, da Universidade Stanford, na Califórnia. Isso contribui para manter a temperatura equilibrada e acima do ponto de congelamento.

As patas de cães também são peludas, o que ajuda a evitar a perda de calor. Em cães de trenó modernos, as áreas mais vulneráveis a gangrena são áreas mais peladas, como os mamilos.

Os huskies de Seppala se beneficiaram de tudo isso durante a Corrida do Soro.

Em 31 de janeiro de 1925, eles já tinham viajado 274 km, partindo de Nome, para encontrar o carregamento de soro. Faltavam dois dias para que o material expirasse.

Seppala tomou então a decisão de cruzar a camada de gelo de Norton Sound. Foi quando chegou uma nevasca que deixou o piloto cego. Para sobreviver, ele precisou confiar nos instintos de seu cão-líder, Togo, especialmente para evitar buracos no gelo.

Togo era ideal para isso: bigodes caninos são sensíveis a mudanças no fluxo de ar. A chave são sensores na base do bigode – e huskies têm mais deles que outras raças.

Eles também são inteligentes, graças a séculos de cruzamentos seletivos. Os Chuckchi precisavam de cães que pudessem tomar decisões de navegação súbitas e percorrer de maneira segura a neve e o gelo. Outra coisa necessária era trabalho em equipe, e, para isso, criaram cães brincalhões.

 

 

Fonte: BBC