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Queda
‘Califado virtual’ do grupo Estado Islâmico bate em retirada na internet
Muito ativo na internet no apogeu de sua expansão territorial em 2015, quando ocupava um território do tamanho da Itália, controlando sete milhões de pessoas
Stringer/Reuters
Estado Islâmico teria adeptos em diferentes países

O grupo Estado Islâmico (EI), a ponto de ser derrotado totalmente na Síria e no Iraque, tenta continuar existindo como ameaça através de seu “califado virtual”, mas sua presença na internet também está em queda, segundo especialistas.

Muito ativo na internet no apogeu de sua expansão territorial em 2015, quando ocupava um território do tamanho da Itália, controlando sete milhões de pessoas, o movimento extremista islâmico inundava a rede com sua propaganda sofisticada.

Hoje, com seu líderes mortos ou em fuga, seus combatentes em derrocada, seus centros midiáticos destruídos, conexões difíceis, vigiadas e bloqueadas pelos serviços de inteligência do mundo inteiro, está cada vez menos presente na web, onde deve deixar falar em seu nome um movimento sobre o qual tem pouco ou nenhum controle.

“Em dezembro de 2017, mais de 3/4 dos 38 órgãos midiáticos do EI estavam praticamente silenciados”, aponta o pesquisador britânico Charlie Winter, que estuda no King’s College a comunicação do grupo. “É como se alguém tivesse apertado o botão de ‘mudo’ do controle remoto”.

Entre 8 e 9 de novembro, o grupo não postou nada online, seja nas redes sociais ou aplicativos, o que não acontecia desde a sua criação.

“A diminuição da produção midiática do EI foi particularmente notável durante as duas últimas semanas”, declarou na ocasião à AFP Charlie Winter.
Queda livre

Esta diminuição drástica da presença do EI na rede é igualmente notada por Albert Ford, que estuda o fenômeno do “extremismo doméstico” no grupo de reflexão americano New America, em Washington.

“Suas operações midiáticas estão em queda livre”, declarou à AFP. “Eles têm menos pessoas disponíveis, menos locais para colher informações, menos meios para postar online”.

Em março de 2017, durante a retomada de Mossul, segunda maior cidade do Iraque e conquistada pelo EI, uma jornalista da AFP visitou as ruínas de uma mansão, em um bairro outrora rico, que havia sido utilizado pelo grupo como centro de mídia.

Entre as paredes calcinadas, restos de computadores sofisticados, impressoras e material de propaganda, CDs, antenas e aparelhos de emissão de sua estação de rádio Al-Bayan.

Nos últimos meses, aumentaram os anúncios da coalizão liderada pelos Estados Unidos da eliminação, normalmente em ataques aéreos, de responsáveis pela comunicação do EI.

O primeiro entre eles, Abu Mohammed al-Adnani, porta-voz oficial do grupo e responsável pelas operações externas, morreu em agosto de 2016.

Agora, o EI utiliza a internet, geralmente via softwares criptografados ou a “deep web”, para encorajar seus partidários no mundo inteiro a agir de maneira independente, quando, no passado, valia-se da rede para planejar diretamente suas operações.

“Eles têm a tendência de cultivar uma certa nostalgia”, explica Charlie Winter. “Alguma coisa para o quê seus seguidores podem se voltar e estimar ‘como eram bons os velhos tempos’, quando o EI controlava extensos territórios na Síria e no Iraque”.

“Sua mensagem é: ‘foi nossa era de ouro, que nos foi roubada pelos inimigos do Islã e é por isso que devemos lutar'”, acrescenta.

Para o pesquisador Bruce Hoffman, especialista em terrorismo na Georgetown University, o perigo reside no chamado “atacante guiado” (“enabled attacker”).

“É alguém que atua como lobo solitário, sem ligação com a organização terrorista, mas que recebeu listas de alvos precisos e informações para realizar sua operação”, explica.

Para isso, o aspirante a jihadista só precisa se debruçar sobre a abundante literatura disponível online há anos e que é impossível de erradicar, como por exemplo o famoso tutorial “Como fabricar uma bomba na cozinha de sua mãe”.