Estudo
Pesquisa de cientistas potiguares e suecos desvenda células da coragem
Cientistas descobriram que a ansiedade e o comportamento de risco podem ser controlados pela manipulação de células OLM, presentes no hipocampo
Ilustrativa
Algumas células no hipocampo desempenham um papel fundamental no comportamento de risco e ansiedade

Por que algumas pessoas conseguem atravessar as torres gêmeas usando um fio de aço no topo dos prédios ou descer as Cataratas do Niágara em um barril de madeira enquanto outras congelam quando precisam subir uma simples escada rolante em um Shopping Center?

Até os irmãos podem mostrar diferenças dramáticas no comportamento de risco. Os mecanismos neurais que conduzem este comportamento são, em grande parte, desconhecidos. No entanto, cientistas do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe-UFRN) e do Departamento de Neurociências da Universidade de Uppsala (Suécia) descobriram que algumas células no hipocampo desempenham um papel fundamental no comportamento de risco e ansiedade.

Em artigo publicado na revista Nature Communications, os autores mostram que os neurônios conhecidos como células OLM (oriens lacunosum-moleculare), quando estimulados, produzem um ritmo cerebral que está presente quando os animais se sentem seguros em um ambiente ameaçador. Por exemplo, quando estão se escondendo de um predador, mas estão cientes de sua proximidade.

As células α2 OLM exibem uma distribuição semelhante a gradiente ao longo do eixo dorsoventral

O trabalho produzido pelos neurocientistas Sanja Mikulovic, Ernesto Restrepo, Klas Kullander, Richardson Leao, entre outros, mostrara que a ansiedade e o comportamento de risco podem ser controlados pela manipulação de células OLM. Para os pesquisadores, encontrar um caminho que possa modular de maneira rápida e robusta o comportamento de assumir riscos é muito importante para o tratamento da ansiedade patológica já que o comportamento de risco reduzindo é uma característica comum em pessoas com alto nível de ansiedade.

A ansiedade adaptativa (ou normal) é essencial para a vida diária, pois pode nos proteger de danos. No entanto, em um grande número de pessoas, ela pode ser disfuncional e interferir gravemente em sua rotina. Nesses casos, os médicos geralmente dependem de antidepressivos para levantar pacientes desse estado. O problema é que essas drogas atuam no cérebro como um todo e podem ter efeitos colaterais graves.

O teta induzido por OLM α2 diminui as respostas de ansiedade ao odor do predador.

Porém, outro achado interessante do novo estudo é que as células OLM também podem ser controladas por agentes farmacológicos. Para pesquisadores a possibilidade de atuar em uma única região do cérebro, manipulando um grupo muito específico de células para controlar a ansiedade pode ser um grande avanço no tratamento da ansiedade e de distúrbios associados, como a depressão.

A descoberta do papel desses neurônios na ansiedade e no risco e a capacidade de controlá-los farmacologicamente podem abrir caminho para o desenvolvimento de ansiolíticos e antidepressivos altamente eficientes para uso humano, sem os efeitos colaterais usuais.

Hipocampo, memória e emoção

No passado, o mesmo grupo de cientistas descobriu que as células OLM eram as “guardiãs” das memórias no hipocampo e que essas células eram muito sensíveis à nicotina.  “Essa descoberta pode explicar por que as pessoas fumam quando estão ansiosas”, diz Richardson Leao.

A participação do hipocampo nas emoções é muito menos conhecida do que seu papel na memória e na cognição. A memória espacial é especialmente investigada. Em 2014, por exemplo, o prêmio Nobel foi concedido pela descoberta das “células de lugar” que representam um GPS biológico e fundamentam as memórias de onde estamos no espaço.

Na última década, os cientistas começaram a reafirmar a importância do papel do hipocampo na regulação das emoções. “É fascinante como diferentes regiões da mesma estrutura cerebral controlam comportamentos distintos e como eles interagem uns com os outros. Identificar circuitos específicos subjacentes a processos cognitivos ou emocionais é crucial para o entendimento geral da função cerebral e o desenvolvimento mais específico de medicamentos para o tratamento de distúrbios”, explicou Sanja Mikulovic.