Tradicional
Prato mais icônico do Piauí tem nome de mulher; acompanhe a receita
O prato se chama Maria Isabel, foi criado no Piauí e inspirou um animado festival gastronômico em Teresina
Ilustração
Segundo a voz do povo, o arroz Maria Isabel surgiu no meio das famílias numerosas e pobres do interior

Entende-se por que o Brasil coleciona tantos pratos à base de arroz. Seu grão é plantado extensivamente no território nacional, mais de 14 milhões de toneladas por safra. Nossas receitas têm sabores variados e nomes curiosos. O Maranhão prepara o arroz de cuxá, à base de vinagreira, arbusto africano ou asiático que lhe dá cor e sabor. Na Bahia, há o arroz-de-hauçá, feito com charque e leite de coco, ao molho de camarão seco, cebola e azeite de dendê. Recebeu o nome de um povo muçulmano espalhado pela África Ocidental, sobretudo no norte da Nigéria.

No Rio Grande do Sul, além do célebre arroz de carreteiro, faz-se o de origone, pêssego desidratado ao sol e prensado. Goiás vai de arroz de pequi, fruto de uma árvore nativa do Cerrado; e tem ainda o arroz de puta rica, reforçado por toucinho defumado, linguiça calabresa, sobrecoxas de frango, carne de sol, milho verde, palmito, ervilha, azeitona e uva passa. Descende do arroz de puta pobre, que aproveita as sobras de carne e feijão. Goiás, junto com Mato Grosso e Minas Gerais, prepara igualmente o arroz com guariroba, o palmito ou broto amargo de uma palmeira de caule fino e reto, nativa do Cerrado. Alguém lembrará do arroz de leite, doce muito apreciado no país, mas esse não vale ser citado aqui por ser internacional.

Mas a receita que está na boca do povo é do Piauí, tem nome de mulher e provável concepção feminina. É o arroz Maria Isabel, elaborado com carne de sol, cebola, pimentão, alho, pimenta-do-reino, coentro e cebolinha verde. Sua difusão nacional aumentou porque batiza um animado festival gastronômico em Teresina, capital do Piauí, sob o patrocínio do Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e os apoios, entre outros, do governo estadual e Senac. Começou no dia 11 de setembro e terminará em 2 de outubro. A etapa culminante já aconteceu: um evento na rua, entre os dias 11 e 13, com a presença de centenas de pessoas.

O Festival Gastronômico Maria Isabel – aliás em segunda edição – também contou com aulas práticas ministradas por chefs de outras regiões do país: a curadora do evento Monica Rangel (Visconde de Mauá), Tereza Paim (Salvador), Elzinha Nunes (São Paulo), Dalton Rangel (São Paulo) e Ana Bueno (Paraty). Até 2 de outubro permanece o circuito gastronômico do qual participam 25 restaurantes locais, com pratos de criação própria.

Público-alvo do evento: pessoas interessadas em gastronomia, estudantes e professores dessa área, profissionais da alimentação e empresários. Estimulou-se ao mesmo tempo o agronegócio, valorizando produtos como a cajuína, deliciosa bebida não alcoólica, sem adição de açúcar, clarificada e esterilizada, de cor amarelo-âmbar, preparada com o suco do caju.

Não por acaso, o arroz Maria Isabel é o prato mais representativo da cozinha do Piauí. Qualquer semelhança com o arroz de carreteiro do Rio Grande do Sul não passa de mera coincidência. Teresina se localiza, em linha reta, a 3 000 quilômetros de Porto Alegre, a capital gaúcha. Difícil um intercâmbio culinário entre ambas.

Houve quem levantasse a possibilidade de influência dos agricultores do Rio Grande do Sul que se transferiram na segunda metade do século passado para o Cerrado Piauiense, dedicando-se ao cultivo do arroz, soja e milho. Mas a hipótese não procede. O arroz Maria Isabel surgiu muito antes da chegada dos colonos gaúchos. Prevalece, assim, a tese da criação autóctone.

Impossível precisar quando e onde a receita foi criada. Ceres Mara Macedo, gestora da iniciativa do Sebrae e estudiosa da cozinha piauiense, acredita ter sido entre as décadas de 1920 e 30, em Campo Maior, a 84 quilômetros de Teresina. Hoje, funcionam na sede daquele município muitas salgadeiras, casas que curtem e vendem a carne de sol, ingrediente do prato. Consumidores e comerciantes aparecem ali para comprar o que consideram “a melhor do Brasil”.

A carne de sol difere da carne-seca por ser feita com mantas mais grossas e se apresentar levemente salgada. Às vezes fica exposta apenas ao sereno por um período curto e suficiente apenas para desidratar um pouco. É mais tenra do que a carne-seca, não dura tanto quanto esta, que tem as mantas cortadas finas, salgadas abundantemente e deixadas ao sol por mais tempo. Ambas podem ser de animal bovino, caprino ou ovino. Os piauienses também consomem a carne de sol como prato principal da refeição.

Segundo a voz do povo, o arroz Maria Isabel surgiu no meio das famílias numerosas e pobres do interior. Começou a ser preparado para as mulheres se alimentassem de carne. Antigamente, só os homens que saíam para trabalhar fora de casa comiam esse alimento. Uma mãe anônima tirou um pedaço da carne que o marido levaria no alforje, partiu em cubinhos, cozinhou com arroz, serviu à família e deu ao prato o nome das duas filhas: Maria e Isabel.

Os piauienses têm peixes na dieta e desenvolvem a piscicultura. Mas, como observa Matias Augusto de Oliveira Matos, no livro Pelas quebradas, várzeas e chapadas (Alínea Editora, Teresina, 2007), não criaram receitas relevantes à base desse ingrediente, como os pernambucanos, baianos e capixabas. Tanto que um dos seus lemas à mesa é explícito: “Carne sempre, peixe nem tanto”.

MARIA ISABEL

Rende 4 a 6 porçõs

INGREDIENTES

  • 1/2kg de carne de sol
  • .1/2 xícara (chá) de óleo
  • .1 dente de alho picado
  • 1cebola picada
  • 1 pimentão picado
  • 8 a 9 xícaras (chá) de água fervendo
  • Cheiro verde (coentro e cebolinha) picado a gosto
  • Pimenta-do-reino moída na hora a gosto (opcional)
  • Molho de pimenta da vovó a gosto (no liquidificador, bata pimentas dedo de moça, azeitonas sem caroço, extrato de tomate, cebola, alho, azeite, vinagre, páprica, cheiro verde e uma pitada de sal. Quando os ingredientes ficarem bem batidos, passeo molho para um pote fechado e guarde na geladeira)
  • Colorau a gosto (opcional)
  • Salsinha para finalizar (opcional)

ACOMPANHAMENTO (opcional)

  • Ovos estrelados e paçoca de carne de sol

PREPARO

  1. Lave a carne e, se necessário, coloque-a de molho para retirar o excesso de sal. Escorra.
  2. Corte a carne em cubinhos.
  3. Em uma panela, aqueça o óleo, junte a carne, tempere com a pimenta-do-reino e refogue. Incorpore o alho, a cebola e refogue mais um pouco. Acrescente o pimentão, o cheiro verde e o molho de pimenta da vovó.
  4. Adicione o arroz, mexa bem, coloque a água fervendo e acrescente o colorau. Se necessário, ajuste o sal.
  5. Sirva com folhas de salsinha em cima, se quiser.
  6. Se gostar, acompanhe com os ovos e a paçoca.
  7. Se preferir, decore com lascas de coco.

 

 

Fonte: Veja