Exemplo
Ex-catador de lixo conclui doutorado em linguística em Florianópolis
Dorival cresceu em meio ao lixão, onde trabalhava com a família, e trilhou um caminho diferente das estatísticas da periferia
Cristiano Estrela / Diário Catarinense
Ao terminar o ensino médio, Dorival foi aprovado no vestibular em Letras

— Hoje acordei e fiquei pensando. Doutor. Será que é isso mesmo? Ainda não caiu a ficha.

As palavras de Dorival Gonçalves Santos Filho, 35 anos, um dia após receber o título de doutor em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), resumem o sentimento do professor que aprendeu a ler em casa com a ajuda da mãe e por meio dos livros que achou no lixo.

Dody, como é chamado, cresceu em meio ao lixão na cidade de Piedade, em São Paulo, a 90 quilômetros da capital paulista. Era de lá que a mãe tirava o sustento da família e onde Dorival começou a trabalhar muito cedo ao lado dos irmãos. Ainda pequeno, ele se apaixonou pelos livros e ficava encantado ao ouvir as histórias que a mãe contava. Foi dona Crélia, a maior incentivadora do filho, quem sempre deu forças para Dorival continuar e chegar aonde chegou.

– Muitas vezes eu pensei em desistir, desde a época da graduação. Eu não tinha celular para conversar com a minha família, mandava carta pra minha mãe falando que não sabia se ia conseguir. E ela dizia “claro que vai, eu vou ver o que posso fazer pra te ajudar”. A gente já era uma família pobre, humilde, e ela ainda tentava dar um jeito pra me ajudar.

Na última sexta-feira, quando Dorival conversou com a Hora, ele ainda nem tinha conseguido falar com a mãe, que mora em Guaramirim, no norte de Santa Catarina, e que não pode vir para a Capital por problemas de saúde.

– É um momento de dedicação para minha família, pois sem eles essa caminhada não seria possível. De uma forma ou de outra eles sempre me ajudaram.

Para Dorival, além da vontade e o incentivo da mãe, outros fatores ajudaram a chegar até aqui. O fator determinante, segundo ele, foram as oportunidades e incentivos do governo.

– Meritocracia pra mim não funciona, porque é uma batalha, é uma disputa muito desleal. Você acha que eu, um menino que veio do lixão, vou estar em igualdade com outro menino que não precisava trabalhar, que só estudava, que podia fazer uma escola de idiomas? É desleal, a força de vontade não faz tudo. Pra mim foi uma soma de fatores, mas foi só com os programas sociais que eu consegui voltar a estudar, porque não precisava trabalhar no lixão o dia todo – avalia.

Ir à escola era regra dentro de casa, mas por sete anos ele precisou largar as carteiras porque não dava conta da dupla jornada. Foi só quando a mãe recebeu o Bolsa Família que Dody conseguiu voltar à sala de aula. E foram os professores, impressionados com o conhecimento do menino, que sugeriram para Dorival cursar Letras devido ao interesse por literatura.

Ao terminar o ensino médio, Dorival foi aprovado no vestibular em Letras (licenciatura em português e francês) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Assis (SP). Se formou em 2010 e foi para Guaramirim, para onde a mãe, os quatro irmãos e os sete sobrinhos haviam se mudado.

 

 

Fonte: Hora de Santa Catarina