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Alternativa
“Sem a Previdência, o negócio vai ser investir fora do Brasil”, diz gestor de fundos do BTG
Ainda baseado nos Estados Unidos, Landers tem uma clara visão do que pensam os investidores estrangeiros
Paulo Fridman / Bloomberg
Will Landers, ex-BlackRock e atual BTG Pactual

Nascido no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, Will Landers, de 50 anos, trabalhou por quase duas décadas em Nova York na área de mercados emergentes e América Latina da Blackrock, a maior gestora de capitais do mundo.

Desde março, Landers passou a atuar na gestora do BTG Pactual. Ainda baseado nos Estados Unidos, Landers tem uma clara visão do que pensam os investidores estrangeiros. Para ele, o Brasil não tem opção senão aprovar a reforma da Previdência.

“Os investidores perderam muito na América Latina nos últimos anos. Houve muitas promessas não cumpridas. Agora querem um sinal para voltarem a investir”, diz. Em visita ao Brasil, Landers deu a seguinte entrevista na sede do BTG na Avenida Faria Lima, centro financeiro paulista.

Como o senhor faz para atrair clientes estrangeiros quando a previsão de crescimento para o Brasil é de cerca de 1% este ano?

  • O Brasil é tão grande dentro dos fundos de América Latina que se o país não está indo bem, ninguém quer comprar. O Brasil costuma ter uma fatia de 60% ou mais nesses fundos. Se olharmos para a liquidez, a participação é ainda maior. A história do Brasil tem que estar redonda para o investidor aceitar colocar dinheiro. Caso a conjuntura esteja complicada aqui, o investidor global, que não entende tanto de América Latina, não vai olhar para cá. Isso foi o que aconteceu na maior parte desta década. Se a realidade brasileira já é complicada para nós, imagine para os estrangeiros. Eles dizem: me avisem quando estiver tranquilo.

Qual é o volume de investimento atual em fundos de América Latina?

  • Está bem baixo. Mas vai mudar com a aprovação da reforma da Previdência. Não é uma questão de “se” a reforma vai passar, mas de “quando”. Não temos um plano B. Se a reforma não passar, a conversa vai ser sobre onde vamos investir fora do Brasil. Sem a reforma, o câmbio está errado a R$ 4 por dólar, o juro está errado no patamar atual. Vai tudo aumentar. Não trabalho com a hipótese de que não vai ser aprovada. Acredito que a primeira aprovação no Congresso vai acontecer no terceiro trimestre, o que já vai dar um alívio. A moeda vai valorizar um pouco, o risco país vai cair um pouco, o Banco Central vai começa a ter mais espaço para cortar juros. Esse crescimento da economia pífio que estamos tendo está estrangulando tudo e todos.

A proposta da Previdência do governo prevê uma economia de R$1,1 trilhão em dez anos. Qual é a economia que o senhor acredita que será aprovada pelo Congresso?

  • Vai ser alguma coisa entre o valor da proposta do governo de Michel Temer e o da atual. Passada a reforma da Previdência, poderemos focar em outras medidas importantes para o crescimento. A agenda econômica é muito boa.

Para alguns críticos, o governo não deveria esperar a aprovação da reforma da Previdência para tocar outros pontos da agenda, como privatizações e abertura comercial. O que o senhor acha?

  • Precisamos atrair dinheiro antes de fazer as privatizações. Com a bolsa de valores do jeito que está hoje, os preços das privatizações seriam muito baixos. Não tem comprador. Os fundos de pensão têm uma fatia muito pequena em ações. A alocação dos estrangeiros também está baixa. O divisor de águas é a reforma da Previdência.

O senhor acredita que a resposta dos investidores estrangeiros será imediatamente após uma eventual primeira aprovação da reforma da Previdência na Câmara?

  • Não é assim. Não acredito que vamos ver um caminhão de dinheiro entrar no dia seguinte. Mas vai começar a mudar. Aquele investidor que já tem dinheiro na América Latina aumenta sua posição. O global que estava fora começa a entrar aos poucos. É um efeito cascata. Os investidores já voltaram a prestar atenção. Parte da conversa já está no pós-aprovação. O desemprego está alto, a indústria tem muita capacidade ociosa. Tem espaço para o juro cair e a economia crescer sem pressão inflacionária. A aprovação também vai dar confiança para a equipe econômica colocar outros pontos da agenda em prática. A Selic, a taxa de juro básica, deve cair até o final do ano. No passado, a Selic não tinha muito efeito na atividade econômica porque tínhamos distorções, como os empréstimos do BNDES e subsídios. Isso mudou. Então uma Selic mais baixa, vai ter mais impacto. Nada será imediato. Mas isso tudo vai nos colocar num novo patamar. Em vez do crescimento de 1,1%, percentual previsto pelo BTG este ano, podemos ter algo entre 2% e 3%. A eficiência da economia vai aumentar muito.

Quais são os setores da economia que devem se beneficiar mais rapidamente em caso de aprovação da reforma da Previdência?

  • A gente está com uma economia tão reprimida que as águas vão subir para todos. O setor financeiro deve crescer mais com o aumento da demanda por crédito, o mesmo deve acontecer com empresas ligadas ao consumo. Vai ter um outro lado. Com o real se valorizando um pouco, isso pode afetar negativamente as exportadoras. Mas não acho que esse movimento será muito grande. O dólar deve se estabilizar entre R$ 3,50 e R$ 3,70.

A intervenção do presidente Bolsonaro no aumento do diesel chegou a preocupar os investidores em Petrobras?

  • Assustou. Todos viram a reação do mercado. Mas foi pontual. O governo resolveu deixar os especialistas da Petrobras tocarem esse assunto. A Petrobras tem muitos investidores minoritários. A direção da empresa precisa tocar o negócio pensando em todos os investidores, não apenas no governo. Isso vem acontecendo. E a decisão da Petrobras de vender metade das suas refinarias vai tirar essa pressão. Quando empresas privadas tiverem metade desse mercado, vai acabar essa história que a culpa do aumento é do governo.

Que tipo de dúvida o senhor tem ouvido dos investidores estrangeiros?

  • Eles perguntam o que acontece se a reforma da Previdência não passar. Questionam por que deveriam investir em empresas brasileiras agora. Dizem que ouviram em 2017 que a situação brasileira iria melhorar muito e não viram isso acontecer. Entendo essa posição deles. Isso reforça a necessidade de passar a reforma. Na última década, os investidores que colocaram dinheiro na América Latina foram queimados várias vezes por promessas que não foram cumpridas. Isso inclui o Brasil e outros países. Por outro lado, a oportunidade de ganho agora no Brasil é muito grande.
  • O pessoal fala em Bovespa a 100 mil pontos, um recorde. Eles esquecem que é recorde em reais. Para o meu público, que investe em dólares, não é assim. Com o dólar em quase R$ 4, dá para dizer, a grosso modo, que para um estrangeiro, a bolsa não está em 100 mil pontos, mas em 25 mil. Por volta de 2010, 2011, a bolsa estava em 40 mil pontos em dólar. Ou seja, ainda estamos bem abaixo. Tudo bem. Os preços do petróleo e do minério de ferro são diferentes. Hoje dependemos muito mais da economia doméstica. O Brasil entrou em recessão e estamos tendo essa recuperação pífia não porque tivemos um problema externo. Isso foi culpa de nossos próprios erros. Agora estamos consertando. Quando consertarmos, vamos ter a chance de atrair o investimento. Na BlackRock, cheguei a administrar US$ 11 bilhões. Quando eu saí este ano, estava com US$ 2 bilhões. Tem espaço para crescer.

Até que ponto a eleição na Argentina este ano pode contaminar um eventual otimismo com o Brasil?

  • A Argentina não estava nos fundos dedicados à América Latina. Vai voltar este mês. Vai ter um peso pequeno. E o investidor que investe nos fundos América Latina não precisa obrigatoriamente colocar dinheiro na Argentina. A situação lá é complicada. O mercado tem subido e descido de acordo com as pesquisas que dão a ex-presidente Cristina Kirchner ou o presidente Mauricio Macri na frente.

Os investidores têm medo que Bolsonaro repita a história de Macri, político eleito com uma agenda liberal, mas que não conseguiu entregar um bom resultado?

  • Não. A razão principal é que os problemas da Argentina são mais básicos. Eles estão quase numa fase que equivale à do Brasil no Plano Real. Estão lutando para baixar a inflação para depois arrumar o resto. A gente tem uma inflação sob controle, um setor privado que investe e estamos avançados na discussão sobre a reforma da Previdência.

As falhas do governo na negociação com o Congresso preocupam?

  • Já preocupou. Não mais. Eles se organizaram bem. Tudo o que a gente ouve é que a articulação está melhor. Há um aprendizado de como fazer política sem fazer a “velha política”. Está caminhando dentro do esperado.
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