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Ladrão conta detalhes do ‘ofício’ e dá dicas de como prevenir roubos
'Ladrão de carro não gosta de gente. Prefere agir discretamente em ruas mais tranquilas'
Por dentro
Zé usava uma mixa para abrir a porta do carro, uma chave universal de cada marca

Ele fala arrastado, emitindo risadinhas a cada frase, e parece que está o tempo todo debochando do seu interlocutor. Mas não: tem aquele sangue nos olhos dos encardidos, acostumado à dureza da vida com a qual não se abate nunca. Dificilmente deixa de encaixar um palavrão no começo ou fim de cada frase e raramente encara seu interlocutor: tem um olhar desconfiado, esquivo, inquieto.

“Trabalhei cinco anos roubando carro num desmanche. Nunca fui preso”, diz o Zé, como prefere ser identificado. Agora se diz aposentado, depois que casou e teve um filho, hoje com cinco anos, a quem dá o carinhoso apelido de “Mala”.

Zé arrumou um emprego de zelador de condomínio na zona oeste de São Paulo e, com as gorjetas, consegue tirar um pouco mais de R$ 2 mil por mês. Muito menos do que ganhava no desmanche. Quanto? “Não faço ideia, era dinheiro demais. E tudo que entrava, saía rapidinho, eu só ficava na zoação.”

Ele diz se lembrar apenas dos valores praticados no mercado: carros mais velhos, R$ 700; mais novos, R$ 1.000. Picape importada, R$ 4.000. Recebia em dinheiro vivo do desmanche para o qual “trabalhava”. “Mas o cara fazia muito mais que isso, partindo o carro”, afirma. O cara, no caso, é o dono do desmanche. Partir o carro, é vendê-lo em peças “para a máfia” — funileiros, mecânicos e até particulares, segundo o Zé.

“Sempre fiquei no 55, nunca no 57”, apressa-se em contar, mostrando um ar de inocência. Esclarece-se: o artigo 155 do código penal diz respeito ao furto. O 157, é roubo a mão armada. “O pessoal do 57 é outra turma. Para eles só interessa carrão importado.”

Zé usava uma mixa para  abrir a porta do carro, uma chave universal de cada marca. Com o módulo, controla os eventuais alarmes e dá partida do carro. “Módulo é a caixa preta. Todo carro tem. A gente já vai com o módulo certo de cada carro e daí tira fora o que está e usa o nosso. É rapidinho”, afirma, fazendo as contas: a operação toda não leva mais do que cinco minutos. Depois disso, tem duas opções: levar para o desmanche ou “pinar” o carro, usar uma espécie de pino para alterar o número do chassi e do parabrisa.

“Daí a gente usa o documento de outro carro e esquenta a mercadoria”. Dá até pra vender no mercado regular, diz ele, mas tem que saber para quem — compradores que não prestam muita atenção nos detalhes. Ou então simplesmente passar para outras turmas, fazer rolo”, comenta, sem querer entrar em detalhes.

“A gente também fazia NP”, conta Zé, sem conseguir explicar a sigla. Provavelmente algo relacionado a Não Pagamento. “Você compra o carro, paga uma, duas prestações, roda três meses e encosta no desmanche. Joga a placa fora e o carro vira um monte de peças”. Mas compra o carro em nome de quem? De ‘laranja’”, responde.

“Sabe o que é laranja, né?”, repete a pergunta três vezes seguidas. Não, não sei, respondo, para provocar a resposta. “É gente que empresta o nome ou gente que nem existe. ‘Nóis’ pega nome até de morto”, diz, soltando uma risada sonora. Mas logo volta a ficar sério. “Eu agora sou honesto, não faço mais isso. Mas eu conto que fiz e não tenho vergonha. Eu só estava querendo pagar minhas contas”, ressalta, querendo ser convincente.

E essa história de ir para o Paraguai? “Ah, isso é bom. Isso dá dinheiro, com certeza. É preciso ter documentação muito boa, há muita batida policial até chegar à fronteira. E também precisa ter os canais de venda: é gente enrolada, que não presta. Traficante, sequestradores. Eu não gostava de ir não. Prefiro ficar na minha.”

“Também já fiz muita vela”, retoma o assunto. E explica: pega uma vela do motor do carro e quebra ela em pedaços. Põe na boca e cospe no vidro do parabrisa. “Ah, quebra tudinho, num instante.”

A cerâmica da vela, umedecida, tem essa propriedade de estilhaçar completamente o tipo de vidro que é usado nos veículos. O principal objetivo: roubar DVD player e GPS, vendidos no mercado por R$ 50. “Que pobreza, né? É preciso fazer muitas operações como essa para valer a pena.”  Então ele se levanta repentinamente. Aponta o dedo para mim, fuzilando com os olhos: “Ó… fica esperto com seu carrinho. Não tem carro que não dê para ser roubado”.

Conselhos do Zé para prevenir roubos

1- Estacione o carro em ruas de movimento. Ladrão de carro não gosta de gente. Prefere agir discretamente em ruas mais tranquilas. “Só os ‘nóia’ pega qualquer carro, em qualquer lugar.”

2- Não confie em estacionamentos clandestinos. Muitos deles já tem acordos com ladrões de carro. Se é para pagar, prefira os estacionamentos com marcas.

3- Acredite: todo carro pode ser roubado. Não há sistema que impeça totalmente o roubo.

4- Carros com cores mais fortes, ou alguns aspectos diferentes, podem interessar menos aos ladrões. Carros batidos ou muito danificados também.

5- Tranque bem o carro. Apesar de não evitar roubos, não facilita.

 

 

 

Fonte: Autoesporte